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Autodesenvolvimento

As nossas descidas.

Todas nós temos momentos em que vamos ladeira abaixo e nos parece que as coisas perdem o sentido que antes carregavam. E nós sofremos, choramos, revisitamos quem somos e o que queremos. Essa potência de ressignificar é muito mais intensa nos momentos em que estamos em algum tipo de queda, e eu acredito que seja justamente pra isso que elas servem: nos fazer juntar forças para subirmos novamente. Pois vamos subir novamente, isso é um fato.

As nossas descidas nos mostram o que precisa ser amputado e retirado de nossas vidas. O que eu realmente quero? O que me falta? O que precisa urgentemente de atenção? Quais partes de mim estão carecendo de cuidado? Como cuido disso? Como lido com aquilo? É tanta coisa. É tanto medo, tanta insegurança, tanta falta de coragem. Fazer o que precisa ser feito e dizer o que precisa ser dito. Colocar pra fora ainda que na vulnerabilidade. Se expor, se mostrar, pegar o que é seu por direito. Por direito.

Nas descidas conseguimos legitimar com mais força o que se passa dentro de nós. De tanto ignorar alguma coisa, em algum momento essa coisa grita e estremece dentro da gente e, geralmente, são em nossos momentos de descida, de recolhimento, de introspecção que algo grita na gente. Ficamos mais atentas ao que se passa dentro e fora de nós e queremos dar um basta ao que fica machucando continuamente. A coragem vai se acumulando. Criamos estratégias, falamos sozinhas, rezamos, pedimos ajuda, conversamos com quem a gente confia, choramos, lemos poesia, ouvimos histórias. Todos esses movimentos servem de lenha para nosso fogo de coragem, nosso fogo de agir e reagir, de tomar posições e fazer o que precisa ser feito.

Rever quem somos e o que realmente queremos é um vai e vem. Em alguns momentos nós abafamos todos esses nossos desejos e vamos deixando pra depois, esperando, talvez, que como num passe de mágica, as coisas caiam em nosso colo; que as mudanças que tanto buscamos tornem-se, facilmente, reais, sem esforços e sem sacrifícios; que as pessoas nos reconheçam por aquilo que somos e que nos tratem como sentimos que merecemos; que sejamos respeitadas por ser quem somos. Mas isso é ideal demais e jamais vai acontecer. Não podemos viver esperando que as coisas melhorem: precisamos ir atrás dessas melhorias. E tudo começa dentro da gente. Nós precisamos nos cuidar antes de esperar que cuidem da gente.

Descer é um ato que nos revela o que está escondido. Nos revela do que fugimos e, quiçá, também nos revela o motivo dessa fuga. Ficamos mais conscientes. Não estamos querendo agradar, estamos querendo reconhecer que também precisamos de cuidados e atenção. Queremos nos curar e vamos atrás disso. Como? Colocando luz em tudo que antes era sombra. Revelando aspectos que antes escondíamos. Lidando com o que precisamos urgentemente lidar — quer os outros gostem ou não. Agimos por nós, e somente por nós.

Por mais que as descidas nos assustem, elas precisam ser sentidas e vividas. É lá que cultivamos as forças necessárias para ascender. A força pra continuar agindo e cuidando e amando e regando as flores que nascem e morrem dentro da gente se reúne nesses momentos em que tudo parece fora do lugar, mas na verdade é aí que as coisas começam a voltar para seus lugares de origem (para depois serem bagunçadas outra vez e cuidarmos outra vez).

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