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respirar no desconforto.

A vida sempre se transmuta e se transforma, e isso é inevitável. Mudanças, muitas vezes, são desconfortáveis; algumas ferem e doem, outras assustam, e outras, ainda, nos encorajam. Seja como for, precisamos acolher o novo e deixar o velho pra trás. Olhar pro que já foi bom um dia e ver que está tudo tão diferente dói muito — muito, muito, muito — mas se escolhermos comparar, deixaremos de viver e de colher o que temos disponível aqui e agora.

Respirar no desconforto. Dar um passo de cada vez. Inspirar e soltar, inspirar e soltar. Vá caminhando, pouco a pouco: o primeiro passo sempre te prepara para o próximo. O desconhecido assusta, mas o temor por não saber o que virá é um dos piores e mais agonizantes, porque, na real, não dá pra saber o que virá a seguir. Nós temos projeções e sabemos bem nos basear no que já foi para esperar o que virá depois, mas, de repente, tudo pode se transformar. E precisamos continuar respirando, apesar de tudo isso; apesar do medo e da dor, precisamos inspirar e soltar.

Nós gostamos de ter o controle das coisas — fomos e somos programados para isso. Mas, a real, é que poucas coisas são controláveis. Pouquíssimas. E tudo o que pode ser controlado está na gente, nunca fora. Os acontecimentos do mundo, os sentimentos das pessoas, os pensamentos dos outros… Não temos poder sobre o que vem de fora, só temos poder sobre como reagimos e como escolhemos lidar com as coisas.

O nosso desejo pela perfeição também tem grande peso em nosso desconforto. Quando nos descobrimos imperfeitos em algum aspecto, podemos ficar bastante incomodados, e isso assusta e desespera. A gente se cobra e se culpa por errar em coisas que, em nosso ideal de vida, não poderíamos errar nunca. Mas nós vamos errar e continuaremos errando e precisamos aprender a respirar mesmo assim. Inspirando e soltando. Acolhendo os nossos erros como mestre e prontos para errar mais uma vez e repetir todo o ciclo. Os aprendizados, nessa vida, são infinitos. E temos que nos permitir vivência-los, com desconforto ou não.

Nosso primeiro instinto, quando algo dói, é tentar impedir que isso nos atinja e nos blindarmos, negando ou empurrando isso pra longe de nós com as próprias barreiras que construímos para nossa proteção. Nos acovardamos e finjimos ter uma força (que de força não tem nada) que não nos pertence. Porém, nesses momentos precisamos respirar com mais calma ainda e respeitar o processo de mudança, de vida-morte-vida, de dor e renascimento, de morte e reflorescimento. E esse respirar inclui perder o ar, se descabelar, entrar em desespero, perder o sono, acreditar piamente que não há mais nada a ser feito. Respirar no desconforto é continuar vivendo apesar de.

Continue refletindo:

Inspira e solta.

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o rumo que muda o mundo é eterno.

(Você pode ler esse texto ao som de “Nuvole bianche”, de Ludovico Einaudi)

É realmente assustador quando nos damos conta de que basta um segundo pra que nossa realidade se transforme: seja pra melhor, seja pra pior. Um segundo. Um piscar de olhos. Tudo o que nos deixa em pé pode desmonorar em uma minúscula partícula de tempo. O chão pode ser removido a qualquer hora. Qual o seu chão? Quem é seu chão?

O rumo que muda o mundo é eterno. É infinito. Existem tantas possibilidades nessa vida. Tantas, tantas, tantas. Eterno e infinito. Já parou pra pensar no que isso significa? Não sei. Ninguém sabe. É só incerteza. Nós não temos controle do que acontecerá. Nunca teremos. Nós achamos que temos e escolhemos acreditar que sim. Nós sempre vamos dormir tendo uma boa noção de como será nosso dia seguinte; mas, de repente, tudo pode mudar. E se mudar?

Essa incerteza é assustadora. Nós sempre achamos que nada vai acontecer e realmente acreditamos nisso. E tudo bem, nem sempre acontece mesmo. A vida nem sempre é feita de grandes marcos — sejam eles bons ou não. A vida, geralmente, é um acumulado de pequenos tesouros, de pequenas dores, pequenos medos. Dessa forma, custa acreditar que tudo pode virar de ponta cabeça assim, do nada. Mas pode sim. O rumo que muda o mundo é eterno e infinito e ele pode tomar outra direção a qualquer instante.

Se você perder o chão, em que vai se apoiar? Se tudo aquilo que você tinha como verdade desmoronar, em que você vai acreditar? O que realmente importa pra você? O que você prioriza?

A vida é um grande clichê, muitas vezes. E os clichês não existem à toa. Nós precisamos constantemente manter contato com nosso eu mais profundo pra realinhar, (mais uma vez) constantemente, o que precisa morrer dentro da gente e o que precisa continuar sendo regado para viver. A vida é tão frágil (mas tão, tão, tão, frágil) que a gente precisa se lembrar, a cada escolha que tomamos, o que, verdadeiramente, faz sentido pra gente. E por mais que saibamos disso muito bem, vamos continuar fazendo escolhas péssimas vez ou outra.

Escolher bem exige coragem. Escolher bem, muitas vezes, dói. Fazer renúncias pode ser muito chato. Os momentos de crise nos lembram que diante da fragilidade da vida, só nos resta tentar e acreditar. Os rumos podem ser bons, e isso consiste em manter a calma e viver de acordo com sua verdade. Saber que você vai errar, mesmo sabendo de tudo isso, também é importante para que você tenha coragem pra ver  e viver a vida do jeito que você sente que ela merece ser vivida: busque suas paixões, vá atrás do que te faz brilhar os olhos, crie seu próprio chão alternativo, alimente o amor das pessoas que te apoiam, agradeça o ar em seus pulmões.

E o mais bizarro de tudo é que nem sempre sabemos qual é a nossa verdade. Precisa-se cavocar bem fundo para conseguir captar seus gracejos, que nem sempre aparecem. Nós não temos como saber tudo nem da gente mesmo. E por mais que não ter controle seja algo tão massacrante, precisamos aprender a dançar conforme o caos — o de fora e o de dentro.

Não estamos aqui para zerar a vida — ela não é nenhum jogo. Estamos aqui para colecionar os miúdos tesouros tanto quanto possível. A vida, por si só, já é um milagre. Se você tem alguma dúvida quanto a isso, observe o mundo em que vivemos, o tamanho do caos instaurado. Você acha mesmo que viver é um privilégio de todos? Não. Viver é o maior dos milagres. E como sendo hospedeira desse milagre, honre-o. Honre sua vida vivendo-a bem. Cuidando dela como se fosse o maior dos tesouros. Dançando e espalhando graça, sentindo os cheiros que chegam até você, curtindo os sabores que te acompanham, abraçando e beijando quem tá aí do lado, agradecendo por estar viva nesse querido e velho mundo.

“existem aqueles dias em que a simples ação de respirar leva você à exaustão. parece mais fácil desistir desta vida. a ideia de desaparecer é capaz de trazer paz. passei tanto tempo sozinha num lugar em que não existia sol. em que não crescia flor. mas de vez em quando no meio da escuridão alguma coisa que eu amava surgia para me trazer de volta à vida. como testemunhar o céu estrelado. a leveza de dar risada com velhos amigos. uma leitora que me disse que os poemas salvaram sua vida. e ainda assim eu lutava para salvar a minha. meus queridos. viver é difícil. é difícil para todas as pessoas. e é bem nesse momento que a vida parece um eterno rastejar por um túnel minúsculo. que precisamos resistir com força às memórias negativas. nos recusar a aceitar os meses ruins ou anos ruins, porque nossos olhos querem engolir o mundo. ainda há tantos lugares com água turquesa para mergulhar. há a família. de sangue ou escolhida. a possibilidade de se apaixonar. pelas pessoas e lugares, colinas altas como a lua. vales que vão fundo em novos mundos. e viagens de carro. acho muito importante aceitar que nós não somos mestre deste lugar. e como visitantes devemos aproveitá-lo como um jardim. tratá-lo com gentileza. para que quem vier depois também aproveite. devemos encontrar nosso sol. cultivar nossas flores. o universo nos presenteou com toda a luz e as sementes. talvez às vezes a gente não ouça mas aqui sempre tem música. só precisa aumentar o volume ao máximo. enquanto houver ar em nossos pulmões – precisamos continuar dançando”.
— Rupi Kaur
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Como habito o mundo?

Ocupar. Habitar. De que modo vivo? Como cuido do agora? Como habito o meu agora? São contemplações que enchem minha cabeça de perguntas e de certezas ao mesmo tempo. Depois de muito sentir, percebo que eu habito o fora do mesmo modo como habito o dentro. A mesma atenção que eu lanço pra fora de mim, eu também lanço pra dentro — o modo como eu faço uma coisa é o modo como faço todas as coisas.

Para habitar eu preciso de confiança. E essa confiança só pode nascer dentro de mim. Eu só consigo lidar com o “lá fora” se eu cultivar, dentro de mim, minha morada. Em tudo há que se encontrar equilíbrio, e isso inclui a forma como habitamos o mundo lá fora e o nosso mundo aqui dentro.

Isso é cuidar. Isso tudo é cuidado. É amor. É envolvimento. Cuidar demanda energia. Demanda inteireza, entrega. O cuidado não é produtivo — pelo menos não pra uma sociedade que valoriza tanto o produto material. Muito pelo contrário: ele pode ser desgastante. E por isso é tão fugidio, por isso nos escapa tanto. De tanto olhar pra fora, de tanto anseio por produzir, acabamos deixando pra lá o cuidado com nossa confiança que vem de dentro e que nos sustenta na vida lá fora — afinal, pra que usar meu precioso tempo olhando pra dentro se eu posso estar fazendo algo que me traga retorno financeiro ou que, ao menos, sirva para a alimentar a exibição desse espetáculo da vida compartilhada que criamos (se o outro não vê o que estou fazendo, não tá valendo). Toda força vem de dentro. Nós só vamos conseguir encarar o mundo se alimentarmos e nutrirmos nosso interior. A volta pra dentro de si mesma dá novo ânimo, novo fôlego, nova coragem.

A volta periódica ao estado selvagem é o que reabastece suas reservas psíquicas para seus projetos, sua família, seus relacionamentos e sua vida criativa no mundo objetivo. Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando.

— Clarissa Pinkola Estés

“Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando”. Uma vida voltada só pra fora cansa — assim como uma vida voltada só pra dentro também cansa. Viver é essa fluidez entre o fora e o dentro. É uma fluidez constante, que nunca cessa. Fluir é um gesto de cuidado e, portanto, improdutivo — e por isso mesmo ele vai exigir de você. Vai exigir desapego e inteireza. O cuidar é uma construção ativa que perpassa o cotidiano. Tudo, o tempo todo, precisa de cuidado. TUDO O TEMPO TODO precisa de cuidados.

Uma relação viva com o mundo faz com que nós formemos uma composição única com o todo. Não somos subordinados e nem violentos perante o mundo de fora; nós simplesmente somos junto com o lá fora. Expandidos, confiantes, seguros. E isso só acontece se tivermos uma casa pra voltar, um lugar que nos acolha, nos dê confiança e espaço pra construir rituais de cuidado: um lugar quentinho, silencioso, onde podemos habitar, ser, crescer, florescer.

Nós temos o direito de habitar uma vida feita à mão, por nós mesmas. É assim que habitamos — assim habitamos. As experiências mais significativas de nossas vidas são compostas dos momentos realmente habitados por nós: momentos de entrega, de construição, de cuidado, de decisão. O prazer de fazer com as próprias mãos, de escolher, de renunciar, de se posionar. Uma vida feita à mão é uma vida habitada no interior; é fluida, constante, silenciosa, cuidadosa. Sua casa apoia e facilita sua passagem no mundo lá fora —e você é sua casa.

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revisitar-se.

Há um momento na vida em que olhamos pra dentro e começamos a mudar tudo de lugar, e isso é, quase que na mesma proporção, gostoso e doloroso. Crescer é isso — crescer direito é isso: voltar pra dentro de si mesmo constantemente e mudar, ainda que com medo, o que precisa ser mudado.

A vida é um eterno ciclo de nascer-morrer-nascer. As coisas precisam morrer. Você precisa morrer muitas vezes na vida para que possa nascer e renascer e florescer. Nunca acaba. E a morte, convenhamos, mexe muito com a maioria de nós. Ela dói, ela provoca, ela mostra coisas que queremos esconder. A decisão, no entanto, é e sempre será nossa: o que vai e o que fica depende somente da gente, de cada um de nós. Nós somos nosso próprio oráculo.

E é difícil revisitar-se. Difícil, chato, assustador. Sabe quando você se acostuma com tudo que te cerca e, automaticamente, o que os outros dizem parece ser sua verdade quase que por osmose? Você não critica nada porque tudo aquilo parece muito certo. Você não pergunta pra você mesma se aquela é realmente sua convicção porque, de fato, parece muito ser a sua convicção. A gente se acostuma com o meio. A gente absorve mais do que imagina. E isso, em algum momento, parece muito natural. Mas só é natural por conveniência. Só é natural até o dia em que você para, reflete, e se dá conta de que tá reproduzindo qualquer coisa que te digam sem nem pensar naquilo. Mas não tem nada de normal nisso, mesmo que pareça.

Revisitar-se implica mudanças. O que você escolhe mudar é problema seu, mas saiba que isso afeta toda a sua vida, por mínima que seja a mudança. Isso não mexe somente com você, mexe com todos que estão ao seu redor. E as pessoas não gostam de mudanças (talvez você não goste de mudanças). Mas há um momento muito crítico na vida em que você precisa escolher quem você quer agradar e isso é um saco porque vai derrubando as suas próprias máscaras (você nem sabia que usava tantas máscaras assim, né?). E você se dá conta do papagaio que mora em você: sim, talvez você só esteja reproduzindo o que todo mundo fala sem questionar. E você pode concordar com o que todo mundo fala desde que você PENSE. Nunca, jamais, por conveniência. E o ser humano é um baita bicho conveniente. A gente ama se sentir seguro.

Todo mundo tem seu tempo. Quando eu descobri (e ainda continuo descobrindo) que é um direito meu questionar o que acontece a minha volta eu fiquei chata. Acho que vamos atingindo extremos até chegarmos, finalmente, no equilíbrio — e não tenha medo de ir pro extremo quando você precisar, talvez esse seja seu caminho de aprendizando que o conduzirá à ponderação. A gente fica meio cricri quando começa a perceber que nada do que falam (e que você reproduzia até agora) faz mais sentido pra você. E há que se tomar cuidado aqui, também: respeitar o outro é tão necessário quando respeitar-se a si mesmo, senão caímos em um discurso de hipocrisia e (de novo) conveniência. O outro que reproduza o que ele quer, afinal, a vida é dele e cada um faz o que bem entender. Mas eu, particularmente, acho uma baita dormência só aceitar o que te falam sem consultar suas próprias fontes. Pergunte pra você, mastigue as coisas antes de digerí-las (ao invés de aceitar o que os outros já te dão mastigado), faça suas pesquisas, estude, vá atrás do que te interessa. E, se for preciso, fique quieto. Talvez ninguém entenda e nem aceite. Mas a vida é sua. Será que temos noção de que realmente só temos a nós mesmos? 

Revisitar-se é seu próprio ato de rebeldia contra seus conceitos. O tempo vai passando e já vamos formando tantas opiniões que, depois de formadas, deixamos ela num canto e não as alimentamos mais. Será que as coisas deveriam funcionar assim? Eu acredito que não. É um constante processo de ida e vinda, assim como quase tudo na vida. Isso inclui também reaprender a ouvir (a si mesmo e aos outros). Ouvir os outros não é um problema, desde que você questione e entenda que o que sai da boca de alguém não é nenhuma lei; antes de tomar como verdade, consulte-se. E tudo isso é aprender a ouvir. Como você escuta os outros?

Viver com os outros e fortalecer relações é importante, mas sua solitude é mais importante ainda. Você só vai se revisitar sozinho, sem dar as mãos pra ninguém. E não há nada errado com isso. É sozinho que você vai descobrir o que precisa morrer e o que precisa renascer. 

Continue a reflexão aqui: <3

Concentre-se no que importa.

O que teu barulho cala?

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o modo como você faz uma coisa é o modo como você faz todas as outras.

Como você lida com as coisas grandes é como você lidará, também, com as pequenas. A atenção que damos pro pequeno mostra como cuidamos do grandioso. Não há separação, há apenas você. Nós nos colocamos pra fora em cada decisão tomada, em cada escolha de palavras, em cada sentimento expressado. Isso equivale a dizer que “se você é fiel no pouco, você também será fiel no muito”. As coisas funcionam assim.

O grande está recheado de um monte de coisinhas. Caso não haja coisinhas dentro da tal coisa grande, ela não passará de um grande vazio. E o que é um grande vazio? É nada, apenas vazio. A nossa felicidade não depende do tanto de coisas imensas que conquistamos, mas de como cuidamos dos detalhes: afinal de contas, eles é que formarão nossa imensidão.

Como você cuida das sutilezas do seu dia-a-dia? Como você celebra a existência dessas pequenezas? Se não soubermos cuidar do pequeno que nos é dado, não saberemos cuidar do grande — que pode ou não chegar. Não adianta passar uma vida inteira alimentando ilusões vazias pois nossa existência não é sobre elas. Nossa existência é sobre colecionar – com o mais amoroso desapego – coisinhas. O modo como as vivemos é o modo como viveremos as coisonas.

Um brinde às coisas pequenas. Que elas nos inundem a vida. Que nós saibamos olhá-las com afeto. Vivê-las com afeto. Sentí-las com afeto. Que não esperemos o extraordinário chegar para colocar pra fora o que há de mais belo dentro do nosso peito — que sejamos capazes de fazê-lo com o mais minúsculo acontecimento.

E tudo isso diz tudo sobre quem somos. O modo como você faz uma coisa é o modo como você faz todas as outras.

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Inspira e solta.

Amadurecer é um processo muito louco. Você acaba lidando com partes de você que achava que estavam bem enterradas e acaba descobrindo que o que estava escondido é, na verdade, essencial pra sua sobrevivência. Amadurecer é jogar luz sobre as sombras e querer enfiar a cabeça debaixo da terra porque — caraca, vai dar trabalho demais lidar com isso — e mesmo assim continuar.

Acho mesmo que o amadurecimento é tipo uma volta pra casa, uma volta pra si mesma. É quando você aprende a se carregar no colo e a se cuidar amorosamente. É quando você segue seu instinto mais selvagem, ainda que isso venha a custar muito. É uma escolha que precisa ser feita diariamente. Crescer é limpar a sua própria casa interior e enfeitá-la como bem entender. Só que, para que a limpeza possa ser feita, o contato consigo mesma é essencial. O contato consigo mesma cura e dá um baita suporte para sobreviver no mundo. Contemplar, criar, meditar, rezar, ler, escrever, silenciar. Qualquer coisa é válida para se conectar a si própria.

Quando a gente cresce a inconstância da vida é gritante. A gente se dá conta de que as coisas vão fugir do controle, de que as coisas não saem sempre como esperamos, que as pessoas não estão aqui pra nos agradar, que se privar do seu instinto é besteira e tantas outras coisas. É subir e descer sem parar. E ficar bem com isso é entender que precisamos nos manter firmes assim mesmo. Não existe outra opção. Inspira, solta e segue. Afinal de contas, a vida-morte-vida é nosso ciclo natural.

Perguntar-se e sondar-se acerca seus reais desejos da alma também faz parte da evolução de cada um. Quando estamos em contato contínuo com a nossa essência a gente aprende a esperar por aquilo que realmente desperta nossa alma e a toca lá no fundo. Muitas vezes a espera significa um grande respeito por si mesma. Porque você se conhece, você sabe o que quer e o que não quer; porque mantém contato com sua essência, escolhe com mais prudência suas atitudes e companhias. Gente enfadonha e situações idem não merecem nossa fixação e atenção. É muito difícil desprender-se disso e, portanto, é um processo. Como tudo na vida — absolutamente TUDO — pr que algo possa nascer, algo precisa morrer. Assim, respira e solta. Guarde o que é bom, solte o que for ruim. É só por meio desse ciclo que as coisas começam a se encaixar e sua resiliência, a se fortalecer.

Floresça e dê à luz sempre que tiver vontade. Como adultas, precisamos muito pouco de licença, mas, sim, de maior criação, de maior estímulo dos ciclos selvagens. O que deve morrer morre. Todas nós sabemos no fundo de los ovarios quando chegou a hora da vida, quando chegou a hora da morte. Podemos tentar nos enganar por vários motivos, mas sabemos.

— clarissa pinkola estés

Pra mim, o mais difícil de encarar na fase adulta é exatamente a impermanência e a inconstância de tudo. Da vida, do humor, do amor, da mente, do medo, do sonho, da dualidade. As coisas morrem. As coisas mudam. As coisas complicam. E a inconstância é sempre uma constante. Ela tá sempre presente nas nossas vidas. O ar entra e logo ele sai. As flores nascem e logo caem. A gente nasce e depois morre. A gente sonha e depois acorda. A gente tem medo e logo encara. É tudo assim. Tudo meio dual, meio louco, meio fora de controle. E é somente aceitando essa dualidade que encontraremos, dentro da gente, o fio condutor de tudo isso, a união do que está separado.

O poder de ser dois é muito forte, e nenhum dos dois lados deve ser negligenciado. Eles precisam ser alimentados da mesma forma, pois juntos proporcionam ao indivíduo poder excepcional.

O poder da dualidade está em agir como uma entidade única. É entender que toda essa bagunça faz parte da mesma coisa e pode nos levar ao mesmo lugar. Equilibrar. Equilíbrio. Saber dosar, saber unir. Unir e manter. Manter e soltar. Soltar e pegar. Pegar e unir. Unir e desunir. Desunir e manter.

Que saibamos perder o controle e soltar. Que saibamos ter controle também. Que entendamos que pra nascer, tem que morrer. Pra inspirar, tem que soltar. São tantos os ciclos… A única certeza é a de que precisamos encerrá-los antes de abrir novos. Fecha o antigo primeiro pra depois abrir o novo. Que não atropelemos os tantos processos pelos quais passamos. Que sejamos pacientes, mas também ousados.

Que sigamos nossa intuição.

Sempre. Sempre. Sempre.

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Concentre-se no que importa.

Eu sempre disse que meu maior medo era chegar na velhice, olhar pra trás e perceber que não vivi de acordo com meus princípios. Desde muito nova eu convivo com essa agonia e eu sofro muito quando me dou conta de que tô precisando passar muita coisa na frente ao invés de estar fazendo o que quero. Sim, essa é a vida. Temos responsabilidades, quer queiramos ou não.  A sociedade pressiona e a gente acaba sucumbindo. O piloto automático é tão mais fácil. A anestesia é tão mais simples. Não dói. Não incomoda. E a gente vai ficando quietinha, encolhida em nosso próprio mundo, fugindo das dores, das pessoas, das responsabilidades, dos afetos, das intimidades.

Eu venho percebendo que, conforme os anos passam, eu fico mais bruta. Fico mais covarde, também. E muito, mas muito mais inflexível e seletiva. Isso tem um lado bom, não posso negar. Ficamos mais donas do próprio nariz com o amadurecimento. Mas isso também nos afasta de algo primordial: a gente corre o risco de ficar tão submersa no nosso oceano particular, com tanta preguiça e tanto vitimismo que esquecemos de amar. Fugimos da intimidade. E eu cheguei a conclusão de que eu, na minha vida, preciso ter mais intimidade. E também acho que o mundo tá carecendo disso: afeto, olho no olho, profundidade, conexão. E nós vivemos em uma estrutura social que nos afasta cada vez mais. A sociedade e suas criações nos afastam e nos fazem acreditar que melhores sozinhos. Mas nós NECESSITAMOS uns dos outros para viver bem — não no sentido tóxico, mas no sentido afetuoso da coisa toda. Somos completos? Sim, sem dúvidas. Mas qual a graça de viver somente para si? Olhando somente pro seu umbigo? E se você acredita nisso, eu espero que um dia você consiga enxergar isso de forma diferente. Pessoas não são (ou não deveriam) ser tidas como nossas inimigas. Mas é assim que a coisa tá engrenada: nós lutamos pra garantir sobrevivência, sendo que eliminamos qualquer possibilidade de (so)breviver quando o fazemos.

As situações limites sempre nos lembram do quanto precisamos ser íntimos uns dos outros. A doença, a separação, a morte. Nós nos chocamos. Nesses momentos nos damos conta de que algo precisa ser transformado. Na maioria das vezes traçamos um plano que dura um tempo e logo nos esquecemos. Até que outra coisa acontece e revisitamos essa angústia. Mas eu queria saber como faz pra quebrar esse ciclo. E a única coisa que me vem a cabeça é um verbo: agir. Sair dessa inércia e lutar contra ela dia após dia. Visitar a família, ligar pra amiga, ouvir os outros (ouvir mesmo), acolher as dores (as suas e a de quem mais doer), e tantas outras miudezas que podem aquecer nosso coração. De quantos “depois” sua vida é composta? O que você tá enrolando pra fazer? E eu quero propor algo pra gente: vamos. Só vamos. Um pouco por dia. Se não dá pra ver, liga. Mantém contato com as pessoas. Não se isola, não. Esquece isso de ajudar todo mundo: concentre-se no que importa, no que realmente importa. O mundo tá carente de afeto. O MUNDO TÁ CARENTE DE AFETO. Eu sei que somos orgulhosos, vaidosos, medrosos. Eu sou. Eu tenho vergonha de me aproximar das pessoas. Eu tenho vergonha de oferecer ajuda. Eu morro de medo de atrapalhar ou incomodar. Eu me sinto uma criança pequena diante de muitas coisas e eu esqueço da responsabilidade que carrego (que todos carregam) de fazer o bem. Mas quanta oportunidade de fazer o bem eu perco quando me deixo ser vencida por essas noias? Eu prefiro ser tida como boba do que perder uma oportunidade de dar afeto; mas não é assim que as coisas são: eu perco MUITA oportunidade de dar afeto porque eu não me concentro no que verdadeiramente importa.

Nós perdemos tempo com idiotices todos os dias. E lembrar da morte é útil pra abrir nossos olhos. A gente vive como se fosse imortal. E eu sei que é muito fácil falar e que o bicho pega mesmo na hora de agir. Mas a gente precisa agir. Nós não vamos curar o mundo com raiva. E talvez você nem queira curar o mundo; talvez você queira apenas curar uma relação que se desgastou. E, de novo, há que se ter amor. Não há cura sem amor. Não há cura sem amor. Não há cura sem amor. E curar significa recuperação. Recuperar seja lá o que. Não deixa pra depois. Eu não quero deixar pra depois. Sentir que é tarde demais é uma das piores sensações que podemos sentir. E sim, pode ser tarde demais. E daí alguém pode dizer “as coisas são como são, nada é tarde demais”, mas eu digo que é sim. Nada vai alterar o passado, mas ter consciência disso muda tudo; deitar no travesseiro e saber que sua ausência fez falta é horrível. A nossa ausência faz falta na vida dos outros. Nós precisamos de gente para sobreviver. Esse papo de que nascemos e morremos sozinhos não é bom e apenas propaga o individualismo cruel. Cruel. Se afastar das pessoas por pura preguiça é crueldade. Se ausentar porque não deu tempo é crueldade. Deixar pra depois é crueldade.

Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.

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Você não precisa saber onde quer estar em dez anos.

Loucura? Não, não. De fato, você não precisa saber exatamente onde quer estar daqui a algum tempo: dez, cinco, três ou um ano. A vida não funciona desse jeito. Não dá pra bolarmos um script e seguí-lo do começo ao fim sem nenhuma mudança. Isso é insano. Isso engessa demais e exclui muitas possibilidades.

Nós tendemos a planejar as coisas e projetar tudo nesse caminho idealizado, como se o controle fosse estar o tempo todo em nossas mãos e como se nada ruim pudesse sequer interferir. Por exemplo, você já fez alguma dieta na vida? Provavelmente, sim. E muito provavelmente, também, no dia em que você optou por fazê-la, você visualizou esse processo mais ou menos assim: “nossa, eu vou ser tão fitness, mas tão fitness que eu vou resistir a tudo e as pessoas vão ficar muito chocadas com tamanha força de vontade”, ou, então “nossa, eu vou malhar todos os dias, não importa o clima e nem meus compromissos; eu vou acordar muito cedo e com todo ânimo do mundo — NADA vai me deter”; ou, ainda “putz, quando eu tiver esse emprego eu vou ser tão feliz que eu vou acordar sozinha sem despertador e eu não vou querer faltar nunca porque ele vai ser a coisa mais foda de todas”. Qualquer exagero e idealização cabem aqui. Sinta-se a vontade para criar seu exemplo.

E, cá entre nós, não é assim que a vida funciona. Você pode sim priorizar algum aspecto na sua vida e deixar pra lá outras coisas enquanto persegue aquele objetivo. Mas não vai ser perfeito. O caminho não é perfeito e nem precisa sê-lo. A graça do processo é aprender a cair e a levantar logo em seguida. E não evitar quedas a todo custo.

Ao invés de evitar a queda, aprenda a cair direito: ou seja, levantando em seguida.

Nós cobramos muito dos outros e da gente também. Falta compaixão e benevolência. A gente projeta muita coisa nas pessoas e nos sonhos e em como os realizaremos. Pode ser que seja realmente fácil, mas pode ser que seja difícil e que seja um processo diário de tomada de consciência para processar seus atos, um após o outro, e talvez você precise se lembrar momentaneamente do motivo de estar fazendo tal coisa. Nós somos humanos, e isso significa que nos iludimos aqui e ali. Sabe aquele emprego dos sonhos? Você não vai conquistá-lo e automaticamente todos os seus problemas acabarão. Sabe aquele amor que você tanto deseja? Ele também não vai te iluminar e deixar a vida mega doce e perfeita do tipo meu-deus-por-que-eu-recamava-da-vida-estou-no-paraíso. Não, não, não. Não é assim que a vida é.

Portanto, onde você quer estar daqui a dez anos talvez não importe tanto assim. Claro que devemos buscar nos conhecer para saber o que nos deixa felizes e bolar planos é realmente importante; as metas e os objetivos nos lembram do que queremos e nos disciplinam, mas eu realmente acho absurda essa cobrança por controlar todos os passos do futuro e ainda mais a cobrança em se saber onde se deseja estar daqui a algum tempo. No fundo, nós sabemos (principalmente) onde não queremos estar, certo? E a gente faz sim ideia do que queremos estar fazendo. Mas façamos juntos um exercício aqui e agora: olhemos para trás. Dez anos atrás. Quais eram seus sonhos? Onde você imaginou que estaria agora? Você consquistou tudo o que quis? Você ainda quer o que outrora desejou? Quantos imprevistos aconteceram? Quantos atalhos você pegou? Quantas vezes mudou de direção?

Bom, eu sei que praticamente nem lembro tanto assim do que eu queria dez anos atrás — lembro de pouca coisa. Conquistei algumas, mas outras ambições nem me servem mais. Eu precisei deixá-las para trás e isso foi um ato de amor por mim mesma. Desapegar de sonhos pode ser frustrante? Sim, e muito, mas é uma eterna redescoberta, sabe? Nós falamos tanto em mudanças,  em metamorfoses… Então como que podemos apoiar as mesmas coisas de sempre? Nós mudamos o tempo todo. O tempo todo nós mudamos.

Eu sempre fiquei meio blé quando alguém me perguntava isso e eu não sabia responder. Me sentia irresponsável, meio que sem metas e indisciplinada. Daí automaticamente eu pensava que “meu deus, eu não sei qual estrada quero trilhar, então eu vou acabar tomando qualquer uma e ser uma fracassada”. Puta que pariu. Que cobrança é essa? Eu não sei mesmo onde quero estar daqui a dez anos, mas eu garanto que vou ser muito fiel a mim mesma nesse meio tempo (não perfeitamente, óbvio, mas o melhor possível). Entende? Só o fato de eu me respeitar, em acolher e me amar meio que garante que eu não vou andar em qualquer estrada. Então talvez eu não precise de grandes planos e nem de ambições gigantes. Basta colocar meu coração e inteligência em minhas escolhas que as farei bem — sejam elas grandes ou pequenas. 

Pode ser que você realize os sonhos que carrega consigo agora, mas pode ser que daqui a dois meses eles não lhe façam mais sentido. E aí? Você vai se martirizar por isso ou vai aceitar sua transmutação? É foda, né? Não é fácil. Nós nos apegamos até nos nossos desejos. Mas eles também vão e vêm. Não há nada errado nisso. Você tem o direito de mudar. Trace planos, mas não se apegue tanto assim a eles. Não deposite esperanças de dias melhores em cima de objetivos futuros. Não projete o melhor que você pode ser em coisas que ainda nem aconteceram. Seja feliz com o que você tem e é agora. E saiba que esse “seja feliz” inclui dias péssimos e totalmente cagados e complicados. É assim mesmo. Ser feliz não é um ato constante. Aquele papo de que para ser corajoso é preciso estar com medo é quase a mesma coisa: para ser feliz você precisa saber o que é tristeza. Para caminhar você precisa se perder. Para saber o que se quer é preciso deixar pra trás o que se queria.

Continue refletindo comigo 🙂

a gente nunca sabe nada.

Dadme la muerte que me falta.

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Dadme la muerte que me falta.

Dá-me a morte que preciso. Quão difícil pode ser deixar morrer o que precisa morrer? Quão difícil viver sendo o que se é e não mais o que se foi? A morte nos ensina e traz vida. Não há vida sem morte, não há morte sem vida. Eis o ciclo da transformação; o ciclo da vida. Viver, morrer, viver. Viver, morrer, viver.

Viver tem sido líquido. Nada foi feito para durar: desde bens materiais até relacionamentos, as mortes têm sido evitadas, tamanha voracidade temos em pular de galho em galho, sempre sedentos e insatisfeitos — nós fugimos assim que as coisas ficam ruins ou estranhas ou desagradáveis, sem mais nem menos, num piscar de olhos vamos embora. Por que? Porque nós não sabemos lidar com o que morre, com o que se transforma. Nós começamos uma relação achando que todos aqueles sentimentos serão sempre os mesmos, mas jamais o serão. A morte vem para eles e os transforma — e nós nem sempre sabemos lidar com essa transmutação. A gente se apega ao que espera, e isso nos deixa tão frustrados que fugimos. Não ficamos, fugimos. Não arrumamos, trocamos.

Quando algo nasce, algo morre. Inevitavelmente. Quando algo morre, algo nasce. Mas como traremos nova vida e novos significados se não deixamos morrer o que já não cabe dentro de nós? Como traremos nova vida se temos tanto medo da morte? Só de vê-la acenando, de longe, já entramos em desespero e logo fechamos nossas portas a ela. Não aceitamos o processo. Não acolhemos a morte como sendo generosa e parte vital do grande ciclo de transformação: coisas precisam morrer e outras coisas precisam entrar. Ciclo de transformação. Metamorfoses. A fuga? A fuga só nos acovarda. Seria ingenuidade? Pressa?

O desejo de forçar o amor a prosseguir somente no seu aspecto mais positivo é o que faz com que o amor acabe morrendo, e para sempre. (…) Amar significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção. Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir.”

Por sermos duais, é extremamente sábio de nossa parte compreender exatamente o que precisa morrer. E é aqui que entra o autoconhecimento, também. Conhecer para saber o que vai e o que fica. O que me veste e o que não entra mais em mim? O que me dói e o que me faz bem? O que eu realmente quero? Pra onde preciso ir? Quem vai comigo? Que parte de mim preciso enterrar? É por isso que fazemos tudo o que fazemos. É por isso também que ficar na zona de conforto é tão gostoso: não precisamos matar nada — mas depois não adianta reclamar que as coisas estão empacadas. Se nada morrer, nada novo vai entrar. É por isso que fazemos tudo o que fazemos. 

Paradoxalmente, à medida que sua vida antiga está morrendo e até mesmo os melhores remédios não conseguem esconder este fato, ela (a mulher, no caso) está alerta para sua perda de sangue e, portanto, apenas começando a viver.

É preciso aceitar o fim. Deixar morrer o que precisa morrer. Dadme la muerte que me falta. Que tenhamos forças pra irmos de encontro ao que tem que morrer. Que saibamos acolher a vida que nasce em seguida com esperança e brilho nos olhos. Vida, morte, vida. Vai ser sempre assim. Tudo passa por esse ciclo, absolutamente tudo. Coisas, pessoas, animais, sentimentos. Tudo. E sim, vai ser difícil, mas também vai ser delicioso.

O texto foi feito com base na reflexão do livro de Clarissa Pinkola Estés, em “Mulheres que correm com os lobos”, e todos os trechos destacados foram retirados do mesmo (by the way, leiam esse livro — l-e-i-a-m esse livro, pelo amor de tudo que é mais sagrado).

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pra que ceder?

Em um mundo de egoístas, corajosos mesmos são aqueles que sabem ceder. Me peguei pensando esses dias em como somos individualistas e compreendemos o mundo de acordo com nossas percepções o tempo todo: nossas dores, nossos medos, nossos anseios, nossas inseguranças. Devemos pensar em nós e respeitar tudo o que carregamos SIM, mas o tempo todo? Isso é saudável? E os outros? Todo mundo quer se proteger, se acolher. Mas se todo mundo fizer tudo apenas pensando em si, onde o mundo irá parar? Até onde pensar no nosso umbigo é proteção individual e até que ponto é egolatria?

Presenciei uma polêmica dia desses e isso me fez ter várias reflexões. A situação era a seguinte: um homem e uma mulher tinham um relacionamento; ela começou a treinar e contratou um personal trainer homem; o marido se sentiu ameaçado; ela estava cogitando conversar com o marido sobre essa irracionalidade para que ela fosse tratata e, no meio tempo, trocar de personal para evitar dores inúteis no companheiro. Caíram em cima dela dizendo que isso era machismo, onde já se viu, ele que se virasse com a dor e insegurança dele e blá-blá-blá. 

Casal autêntico fazendo graça - amar é ceder.

Consigo entender os dois lados. Num primeiro momento, também achei a concessão um absurdo. Mas depois comecei a trazer isso para minha realidade e me dei conta de que, NA MINHA OPINIÃO, isso não era machismo (desde que essa insegurança fosse levada a sério e bem tratata). Por que? Porque o amor cede também (amor, amor, tá? não essas coisas líquidas e banais). Se ceder não for nos prejudicar emocional e fisicamente, o que nos impede de abrir a mão? Orgulho? Pra provar que estamos certos a qualquer custo? Não acho que seja bem assim. E se fosse o contrário? Se alguém não é capaz de renunciar pequenas coisas, como serão as grandes? Não serão, né. 

Nós fomos criadas em uma sociedade altamente machista, fato. Mas os homens também estão nessa. Eles também estão aprendendo. Não adianta endemonizar e tomar toda atitude como sendo machista. Ao invés disso, cada mulher poderia ajudá-los. E mulheres também erram. É normal, somos humanos. Por debaixo de cada atitude nossa existe um ser humano vulnerável e propenso a errar. E nós vamos errar, mesmo cercados de tantas informações assim. E tanta informação também pode ser um problema. A gente fica o tempo todo ouvindo várias pessoas dizendo o que é certo e o que é errado. A gente se confunde. “meu deus, se eu aceitar isso estarei sendo trouxa”; “não posso ceder nisso porque eu ouvi falar que é assim que os relacionamentos abusivos começam”; “eu tenho que me amar em primeiro lugar e não posso fazer nada que eu não queira”. E é assim que se forma uma geração mimada e egoísta e imediatista e medrosa (me incluo e luto contra ela todo dia, tá?).

Acho que o abuso começa no momento em que as exigências aparecem. As imposições, as proibições, as opressões. Isso é motivo de alerta. Mas quando é uma troca genuína de sentimentos, nós temos que ajudar quem escolhemos ter do nosso lado. Estamos falando de quem AMAMOS e queremos bem. Ajudem e procurem ajuda. Conversem muito. Não achem que o companheiro ou companheira de vocês é seu inimigo ou inimiga (e se for, hasta la vista, baby). Abrir o coração e expor inseguranças autênticas é muito difícil — e nessas horas a abordagem conta muito: como você as expõe? Você faz isso de coração aberto ou você chega de peito estufado pra cima? Mostrar vulnerabilidade não é fácil, não.

Se queremos um mundo diferente, estamos no caminho errado. O amor ultrapassa qualquer demanda do ego quando é verdadeiro. Precisamos ceder (aos homens e às mulheres) e o ato de ceder não faz com que você perca seu valor em uma relação saudável (e se não for saudável, siga seu instinto, procure ajuda e vaze assim que conseguir).

Parece fácil, mas não é. É muito complexo. É necessário avaliar a situação toda pra se ter discernimento. Mas nós temos que ajudar quem nós amamos. Isso não significa passar por cima de seus mais profundos valores — não! Isso implica em reconhecer a fraqueza do outro e ajudá-lo e respeitar sua dor, e isso tem que ser recíproco! 

 

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peça ajuda.

O mundo está cada vez mais individualista, né? Mas quem faz o mundo somos eu e você. Já parou pra pensar nisso? Talvez seja momento de sairmos um pouco de nossas bolhas e aceitarmos que precisamos um dos outros — e não, isso não é sinal de covardia.

Pedir ajuda pode até ser vulnerabilidade, mas há muita (MUITA) força na vulnerabilidade. E humildade também. Gente durona não pede ajuda e, quase sempre, quem é muito durão é, beeem lá no fundo, super mole. Irônico, né? 

Nós precisamos da nossa individualidade, certamente. Mas de onde vem esse receio em pedir ajuda? Tá, vamos combinar que existem pessoas que se sentem as bam-bam-bam quando pedem ajuda pra elas, né? E essas pessoas gostam de humilhar, de mostrar sua superioridade e por aí vai. Mas esse tipo de gente é melhor relevar. Eu tô falando mesmo em pedir ajuda pra quem quer nos ajudar — e tem muita gente disposta a isso.

Menina de olhos azuiz entre flores.

Um dos motivos, como já disse, é que a gente pode pegar um certo ranzo em pedir ajuda quando o fazemos a pessoas erradas. Fato. Mas muita gente se julga também quando pede ajuda. “ai, como sou fraca”. “por que eu nao consigo resolver isso sozinha? claro que eu consigo. eu sou forte e vou provar isso”. Não, não, não, não, não. Todo mundo precisa de ajuda e ninguém é fraco por isso.

Sabe, algumas coisas a gente não queria pra nossa vida. Cada um tem suas sombras e nós sabemos bem como é chato viver com elas. Mas elas são nossas. E quanto a gente entende que elas existem para nossa própria jornada ter mais sentido, a gente aceita; ainda que com dor, a gente aceita; na verdade, podemos muito bem escolher não aceitá-las, mas adianta? Uma hora elas voltam pra gente. O melhor é abraçá-las agorinha (ainda que rolem uns tapas pra lá e pra cá).

E nós não precisamos fazer isso sozinhas. Primeiro, temos nossa intuição como guia. Use-a. Investigue-a. Ela deve ser seu primeiro farol. Segundo, o mundo tá cheio de gente linda (e gente bem de buenas) para nos ajudar. Peça ajuda. Nós precisamos dos outros. Você não é menos quando pede ajuda. A outra pessoa não é mais quando ajuda. Isso é irmandade, é troca. Eu bem sei que é algo cultural essa questão de covardia VS coragem, mas o mundo gira e nós temos que desconstruir para conseguirmos ampliar nossa consciência.

Você conhece alguém que diz que terapia é só pra gente doida? Que reforço escolar é só pra burro? Que fé é só para os medrosos? Que nutricionista é só pra descontrolados? Acho que sim, né? E isso é só uma parte da grande lista de afirmações ignorantes que temos o desprezer de ouvir. Tem gente que quer se virar sozinha sempre e esquece que a dor pode ser diluída quando damos a mão pra alguém. O simples fato de falar sobre suas dores com alguém pode trazer imenso alívio. Não tenha medo — ainda existe gente linda no mundo.

E, obviamente, ajude. Ajude os outros e tente não esperar nada em troca — pode ser que haja reciprocidade, pode ser que não. Eu sei que quase todos nós, bem lá no fundo, espera o bem em troca quando fazemos o bem. Mas nem sempre isso ocorre e não dá pra se revoltar por isso. Muitas vezes coisas ruins acontecem com pessoas boas. Esse mundo não é justo. Ajude mesmo assim. Ame mesmo assim. Perdoe mesmo assim. Não é fácil ser um terráqueo mas é o que temos pra hoje.

Doeu? Peça ajuda. Alguém que você gosta (ou não, vai saber) tá numa bad violenta? Ajude com o que puder. A gente não precisa passar por tudo sozinho. Peça ajuda. Peça ajuda. Peça ajuda. E só pra deixar bem claro: ninguém é fraco ao pedi-la.

 

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Tem alguma sugestão de reflexão? Escreve pra gente aqui nos coments 🙂

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será que estamos nos percebendo?

O que, de fato, andamos enxergando na gente e nos outros? Será que estamos prestando atenção? Estamos percebendo nossos sentimentos, nossos incômodos, nossa essência? E, ao mesmo tempo, será que estamos enxergando os outros no real sentido da palavra?

Como sempre escrevo por aqui, acredito realmente que as pessoas colocam pra fora somente aquilo que trazem dentro de si mesmas. Tendo isso como garantia, é absurdamente chato conviver com gente que não nos percebe; a impressão que tenho é que elas são, antes de mais nada, incapazes de se autoenxergarem. E isso é triste. Muito triste.

Porém, não é sempre que as pessoas não nos enxergam. Em muitos momentos essa impressão que temos não passa de capricho e carência de feridas que estão abertas dentro de nós. É preciso aguçar a percepção e também a intuição para discernir o que está em jogo: insegurança ou incompatibilidade.

Viver com gente que não te enxerga é um dos piores tipos de relacionamento. Você acaba aceitando migalhas e se vê maluco tentando mostrar pro outro quem é você. Mas a gente tem que se lembrar constanemente que, se precisamos nos provar ou justificar pra que vejam nosso valor, algo anormal está acontecendo e atitudes precisam ser tomadas. Mas antes de sair julgando e se afastando de pessoas é legal lembrar que somos responsáveis pela nossa vida e que vestir a capa de vítima pode ser perigoso e enganador.

Muita gente anda vazia de si mesma e cheia dos outros. Nós, muito comumente, somos cercados por pessoas com as quais somos obrigados a conviver, e isso pode ser altamente venenoso se não nos cuidarmos no meio de todo esse processo. Depender da validação externa sempre será uma jornada fadada ao fracasso — eis mais um belo clichê da vida!

Mulher entre flores tapando um olho.

E no meio de tudo isso, algo que merece destaque: nossos relacionamentos precisam ser escolhidos a dedo, com muito cuidado, mas também com muita humanidade. Saiba quem está ao seu lado. Por certo, nós somos responsáveis pelos nossos sentimentos, mas é torturante ficar ao lado de gente abusiva, e o poder de escolha é todo nosso; se não cuidarmos de nossa saúde mental, ninguém o fará. Dá pra sentir o que sai da pessoa. Dá pra perceber quando elas nos querem bem ou não. É ruim demais ser criticado o tempo todo, ser cobrado, ser julgado por suas escolhas e por suas características.

Mas é preciso ter calma. Acima de tudo estamos lidando com humanos. Nós todos temos ego. Nós vivemos em uma sociedade marcada pela cultura da guerra — a gente fica na defensiva mesmo. Eu erro, tu erras, ele erra… Todos nós estamos sujeitos a isso. Então é preciso ter calma para não se tornar inflexível e desequilibrado e autocentrado demais. Equilíbrio é tudo, né? Pessoas que acham que estão sendo invejadas e perseguidas o tempo todo mostram o outro lado da moeda: muitas vezes somos NÓS que estamos percebendo pouco os outros e exigindo demais.

Desvalidar alguém é um ato insensível, e é fácil e confortável demais alegar que “fulano não presta, você merece mais” sem antes compreender que todo ser humano está sujeito a falhas e vulnerabilidades. Nós nos transformamos constantemente, então, logicamente, todos se transmutam no decorrer da vida. Ora, então os outros também evoluem, assim como eu! 

Há uma enorme diferença (e eu me dei conta disso recentemente) entre juízo de valor e julgamentos moralizadores: o juízo de valor reflete aquilo que julgamos ser o melhor para a vida; já quando fazemos julgamentos moralizadores, condenamos pessoas e comportamentos que estão contra nossos juízos de valor. Complexo, né? Mas faz todo sentido. E a empatia é uma ferramenta poderosa para diferenciarmos um do outro.

As pessoas têm o direito de ser quem elas são. Quem escolhe quem vai e quem fica é você. Vale a pena ficar ao lado de tal pessoa? Eu me sinto bem? Me sinto livre para ser quem sou? Sempre lembrando que, do outro lado da história, alguém também pode estar querendo se afastar de você. E como você se sentiria com isso? Você gostaria de julgamentos doentios ou de compreensão? Eu sei que é fácil falar e que na hora a gente costuma cagar e sentar em cima, mas é uma prática reflexiva aprender a lidar com tudo isso. Do mesmo modo que queremos ser vistos, os outros também querem. 

Não acredito que a responsabilidade seja sempre só de um. Se alguém nos maltrata, de algum modo estamos permitindo isso (interprete esta frase com cuidado). Mas compatibilidade e incompatibilidade existem. Energia também. Tem gente que suga, tem gente que soma. Tem gente que machuca e tem gente que cura. Mas talvez quem te machuque seja a cura de outra pessoa. E aí? A gente nunca vai saber. Somos tão complexos. Não dá pra ser amigo de todo mundo, mas o contrário também é verdadeiro. Nós precisamos uns dos outros e a ajuda é sempre bem-vinda. Mas o olhar benevolente para com o outro está em falta; somos violentos demais nas nossas relações. Com certeza você já ouviu aquela frase maravilhosa que diz que “nós nunca sabemos pelo que o outro está passando; portanto, seja gentil” e ela é genuína. 

Meu termômetro é meu sentimento honesto. Em casos como este, eu procuro meditar e refletir e estudar meu próprio corpo e alma. Se tenho que ir embora, tento ir sem julgar os outros com minha moral. Se eu fico, eu tento entender que a escolha foi minha. Note que eu falei que tento. Nem sempre consigo e muitas vezes falho e imponho regras aos outros. Mas a gente é feito disso, né? Erros e acertos. E meu pensamento final, talvez, seja o de que precisamos ser a cura do mundo o máximo que pudermos: vamos enxergar mais os outros — isso diz com certeza que também estamos atentos a nós mesmos; e percepção de ninguém no mundo se equipara ao olhar que temos para conosco. Não significa colocar os outros acima ou abaixo, significa apenas ser humano e empático.

Banat, banat, ban jai.
(Fazendo, fazendo, um dia feito. Um esforço hoje, outro amanhã, e um dia você atinge a meta divina). <3

Aproveito para deixar aqui a dica de dois livros sen-sa-ci-o-nais:

  • Comunicação não-violenta, de Marshall B. Rosenberg.
  • Autobiografia de um iogue, de Paramahansa Yogananda.

E também pra indicar mais leituras aqui do bróguinho:

  • Somos medrosos e mimados demais, aqui.
  • A tal validação externa, aqui.