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As nossas descidas.

Todas nós temos momentos em que vamos ladeira abaixo e nos parece que as coisas perdem o sentido que antes carregavam. E nós sofremos, choramos, revisitamos quem somos e o que queremos. Essa potência de ressignificar é muito mais intensa nos momentos em que estamos em algum tipo de queda, e eu acredito que seja justamente pra isso que elas servem: nos fazer juntar forças para subirmos novamente. Pois vamos subir novamente, isso é um fato.

As nossas descidas nos mostram o que precisa ser amputado e retirado de nossas vidas. O que eu realmente quero? O que me falta? O que precisa urgentemente de atenção? Quais partes de mim estão carecendo de cuidado? Como cuido disso? Como lido com aquilo? É tanta coisa. É tanto medo, tanta insegurança, tanta falta de coragem. Fazer o que precisa ser feito e dizer o que precisa ser dito. Colocar pra fora ainda que na vulnerabilidade. Se expor, se mostrar, pegar o que é seu por direito. Por direito.

Nas descidas conseguimos legitimar com mais força o que se passa dentro de nós. De tanto ignorar alguma coisa, em algum momento essa coisa grita e estremece dentro da gente e, geralmente, são em nossos momentos de descida, de recolhimento, de introspecção que algo grita na gente. Ficamos mais atentas ao que se passa dentro e fora de nós e queremos dar um basta ao que fica machucando continuamente. A coragem vai se acumulando. Criamos estratégias, falamos sozinhas, rezamos, pedimos ajuda, conversamos com quem a gente confia, choramos, lemos poesia, ouvimos histórias. Todos esses movimentos servem de lenha para nosso fogo de coragem, nosso fogo de agir e reagir, de tomar posições e fazer o que precisa ser feito.

Rever quem somos e o que realmente queremos é um vai e vem. Em alguns momentos nós abafamos todos esses nossos desejos e vamos deixando pra depois, esperando, talvez, que como num passe de mágica, as coisas caiam em nosso colo; que as mudanças que tanto buscamos tornem-se, facilmente, reais, sem esforços e sem sacrifícios; que as pessoas nos reconheçam por aquilo que somos e que nos tratem como sentimos que merecemos; que sejamos respeitadas por ser quem somos. Mas isso é ideal demais e jamais vai acontecer. Não podemos viver esperando que as coisas melhorem: precisamos ir atrás dessas melhorias. E tudo começa dentro da gente. Nós precisamos nos cuidar antes de esperar que cuidem da gente.

Descer é um ato que nos revela o que está escondido. Nos revela do que fugimos e, quiçá, também nos revela o motivo dessa fuga. Ficamos mais conscientes. Não estamos querendo agradar, estamos querendo reconhecer que também precisamos de cuidados e atenção. Queremos nos curar e vamos atrás disso. Como? Colocando luz em tudo que antes era sombra. Revelando aspectos que antes escondíamos. Lidando com o que precisamos urgentemente lidar — quer os outros gostem ou não. Agimos por nós, e somente por nós.

Por mais que as descidas nos assustem, elas precisam ser sentidas e vividas. É lá que cultivamos as forças necessárias para ascender. A força pra continuar agindo e cuidando e amando e regando as flores que nascem e morrem dentro da gente se reúne nesses momentos em que tudo parece fora do lugar, mas na verdade é aí que as coisas começam a voltar para seus lugares de origem (para depois serem bagunçadas outra vez e cuidarmos outra vez).

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respirar no desconforto.

A vida sempre se transmuta e se transforma, e isso é inevitável. Mudanças, muitas vezes, são desconfortáveis; algumas ferem e doem, outras assustam, e outras, ainda, nos encorajam. Seja como for, precisamos acolher o novo e deixar o velho pra trás. Olhar pro que já foi bom um dia e ver que está tudo tão diferente dói muito — muito, muito, muito — mas se escolhermos comparar, deixaremos de viver e de colher o que temos disponível aqui e agora.

Respirar no desconforto. Dar um passo de cada vez. Inspirar e soltar, inspirar e soltar. Vá caminhando, pouco a pouco: o primeiro passo sempre te prepara para o próximo. O desconhecido assusta, mas o temor por não saber o que virá é um dos piores e mais agonizantes, porque, na real, não dá pra saber o que virá a seguir. Nós temos projeções e sabemos bem nos basear no que já foi para esperar o que virá depois, mas, de repente, tudo pode se transformar. E precisamos continuar respirando, apesar de tudo isso; apesar do medo e da dor, precisamos inspirar e soltar.

Nós gostamos de ter o controle das coisas — fomos e somos programados para isso. Mas, a real, é que poucas coisas são controláveis. Pouquíssimas. E tudo o que pode ser controlado está na gente, nunca fora. Os acontecimentos do mundo, os sentimentos das pessoas, os pensamentos dos outros… Não temos poder sobre o que vem de fora, só temos poder sobre como reagimos e como escolhemos lidar com as coisas.

O nosso desejo pela perfeição também tem grande peso em nosso desconforto. Quando nos descobrimos imperfeitos em algum aspecto, podemos ficar bastante incomodados, e isso assusta e desespera. A gente se cobra e se culpa por errar em coisas que, em nosso ideal de vida, não poderíamos errar nunca. Mas nós vamos errar e continuaremos errando e precisamos aprender a respirar mesmo assim. Inspirando e soltando. Acolhendo os nossos erros como mestre e prontos para errar mais uma vez e repetir todo o ciclo. Os aprendizados, nessa vida, são infinitos. E temos que nos permitir vivência-los, com desconforto ou não.

Nosso primeiro instinto, quando algo dói, é tentar impedir que isso nos atinja e nos blindarmos, negando ou empurrando isso pra longe de nós com as próprias barreiras que construímos para nossa proteção. Nos acovardamos e finjimos ter uma força (que de força não tem nada) que não nos pertence. Porém, nesses momentos precisamos respirar com mais calma ainda e respeitar o processo de mudança, de vida-morte-vida, de dor e renascimento, de morte e reflorescimento. E esse respirar inclui perder o ar, se descabelar, entrar em desespero, perder o sono, acreditar piamente que não há mais nada a ser feito. Respirar no desconforto é continuar vivendo apesar de.

Continue refletindo:

Inspira e solta.

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o rumo que muda o mundo é eterno.

(Você pode ler esse texto ao som de “Nuvole bianche”, de Ludovico Einaudi)

É realmente assustador quando nos damos conta de que basta um segundo pra que nossa realidade se transforme: seja pra melhor, seja pra pior. Um segundo. Um piscar de olhos. Tudo o que nos deixa em pé pode desmonorar em uma minúscula partícula de tempo. O chão pode ser removido a qualquer hora. Qual o seu chão? Quem é seu chão?

O rumo que muda o mundo é eterno. É infinito. Existem tantas possibilidades nessa vida. Tantas, tantas, tantas. Eterno e infinito. Já parou pra pensar no que isso significa? Não sei. Ninguém sabe. É só incerteza. Nós não temos controle do que acontecerá. Nunca teremos. Nós achamos que temos e escolhemos acreditar que sim. Nós sempre vamos dormir tendo uma boa noção de como será nosso dia seguinte; mas, de repente, tudo pode mudar. E se mudar?

Essa incerteza é assustadora. Nós sempre achamos que nada vai acontecer e realmente acreditamos nisso. E tudo bem, nem sempre acontece mesmo. A vida nem sempre é feita de grandes marcos — sejam eles bons ou não. A vida, geralmente, é um acumulado de pequenos tesouros, de pequenas dores, pequenos medos. Dessa forma, custa acreditar que tudo pode virar de ponta cabeça assim, do nada. Mas pode sim. O rumo que muda o mundo é eterno e infinito e ele pode tomar outra direção a qualquer instante.

Se você perder o chão, em que vai se apoiar? Se tudo aquilo que você tinha como verdade desmoronar, em que você vai acreditar? O que realmente importa pra você? O que você prioriza?

A vida é um grande clichê, muitas vezes. E os clichês não existem à toa. Nós precisamos constantemente manter contato com nosso eu mais profundo pra realinhar, (mais uma vez) constantemente, o que precisa morrer dentro da gente e o que precisa continuar sendo regado para viver. A vida é tão frágil (mas tão, tão, tão, frágil) que a gente precisa se lembrar, a cada escolha que tomamos, o que, verdadeiramente, faz sentido pra gente. E por mais que saibamos disso muito bem, vamos continuar fazendo escolhas péssimas vez ou outra.

Escolher bem exige coragem. Escolher bem, muitas vezes, dói. Fazer renúncias pode ser muito chato. Os momentos de crise nos lembram que diante da fragilidade da vida, só nos resta tentar e acreditar. Os rumos podem ser bons, e isso consiste em manter a calma e viver de acordo com sua verdade. Saber que você vai errar, mesmo sabendo de tudo isso, também é importante para que você tenha coragem pra ver  e viver a vida do jeito que você sente que ela merece ser vivida: busque suas paixões, vá atrás do que te faz brilhar os olhos, crie seu próprio chão alternativo, alimente o amor das pessoas que te apoiam, agradeça o ar em seus pulmões.

E o mais bizarro de tudo é que nem sempre sabemos qual é a nossa verdade. Precisa-se cavocar bem fundo para conseguir captar seus gracejos, que nem sempre aparecem. Nós não temos como saber tudo nem da gente mesmo. E por mais que não ter controle seja algo tão massacrante, precisamos aprender a dançar conforme o caos — o de fora e o de dentro.

Não estamos aqui para zerar a vida — ela não é nenhum jogo. Estamos aqui para colecionar os miúdos tesouros tanto quanto possível. A vida, por si só, já é um milagre. Se você tem alguma dúvida quanto a isso, observe o mundo em que vivemos, o tamanho do caos instaurado. Você acha mesmo que viver é um privilégio de todos? Não. Viver é o maior dos milagres. E como sendo hospedeira desse milagre, honre-o. Honre sua vida vivendo-a bem. Cuidando dela como se fosse o maior dos tesouros. Dançando e espalhando graça, sentindo os cheiros que chegam até você, curtindo os sabores que te acompanham, abraçando e beijando quem tá aí do lado, agradecendo por estar viva nesse querido e velho mundo.

“existem aqueles dias em que a simples ação de respirar leva você à exaustão. parece mais fácil desistir desta vida. a ideia de desaparecer é capaz de trazer paz. passei tanto tempo sozinha num lugar em que não existia sol. em que não crescia flor. mas de vez em quando no meio da escuridão alguma coisa que eu amava surgia para me trazer de volta à vida. como testemunhar o céu estrelado. a leveza de dar risada com velhos amigos. uma leitora que me disse que os poemas salvaram sua vida. e ainda assim eu lutava para salvar a minha. meus queridos. viver é difícil. é difícil para todas as pessoas. e é bem nesse momento que a vida parece um eterno rastejar por um túnel minúsculo. que precisamos resistir com força às memórias negativas. nos recusar a aceitar os meses ruins ou anos ruins, porque nossos olhos querem engolir o mundo. ainda há tantos lugares com água turquesa para mergulhar. há a família. de sangue ou escolhida. a possibilidade de se apaixonar. pelas pessoas e lugares, colinas altas como a lua. vales que vão fundo em novos mundos. e viagens de carro. acho muito importante aceitar que nós não somos mestre deste lugar. e como visitantes devemos aproveitá-lo como um jardim. tratá-lo com gentileza. para que quem vier depois também aproveite. devemos encontrar nosso sol. cultivar nossas flores. o universo nos presenteou com toda a luz e as sementes. talvez às vezes a gente não ouça mas aqui sempre tem música. só precisa aumentar o volume ao máximo. enquanto houver ar em nossos pulmões – precisamos continuar dançando”.
— Rupi Kaur
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quando o desnecessário é necessário.

Eu sempre digo que deus mora nos detalhes. A divindade das coisas se esconde nos gestos simples e pequenos que passam despercebidos aos olhos da maioria de nós. São as singularidades que preenchem nossa alma; as pequenices; o tanto de coração que um ato nos revela e como coisas simples tocam nossa alma tão lá no fundo que ficamos marcados de um jeito tão sutil e encantador que jamais nos esquecemos. Isso é simplesmente divino, encantador, leve. E por isso, sem dúvida, a divindade está presente ali — e essa divindade pode ser interpretada como você bem entender (o importante é sentir, na real; interpretar não é lá tão necessário assim).

A arte da cor!                                                                                                                                                                                 Mais

Durante o deslizar dos dias, nossa tendência é buscarmos a praticidade e acabar logo com tudo o que precisa ser feito — e não, não há nada errado nisso. Há coisas que precisam ser feitas com rapidez, sem delongas. Entramos no piloto automático, não colocamos nosso coração, não adicionamos pitadas de leveza e de encantamento naquilo que fazemos. Simplesmente vamos fazendo: sem paixão, sem poesia, sem valorização. E de fazer em fazer, vamos tecendo nossa vida. A vida se dá momento a momento; a cada escolha costuramos — ou remendamos — mais um ponto da nossa jornada. E tem gente que ainda vive a espera de coisas grandiosas para se sentir vivo. Quanta tolice, quanta ignorância.

Existem pequenices que, a meu ver, são mágicas; e são mágicas porque nos elevam, nos trazem presença, nos fazer sentir a vida com nova perspectiva. A gente sai diferente do que entrou. Nossa consciência se transforma. Elas são tão pequenas que nos custa acreditar que podem fazer diferença, e por isso as deixamos de lado. São classificadas, essas tal pequenices, como irrelevantes, estúpidas, como sendo frescura e, principalmente, desnecessárias. Vá direto ao ponto e faça o que precisa ser feito, é o que nos dizem. Ótimo. Mas que tal irmos direto ao ponto, fazendo o que precisa ser feito, com uma singularidade capaz de transformar esse simples gesto em um gesto de devoção, de saudação, de reverência?

É o tanto de coração que você coloca. Se você precisa passar vassoura no chão (ou qualquer outra coisa), você tem duas escolhas: passar reclamando ou passar com inteireza, colocando tudo o que você tem nessa ação — e aí você fica livre para sentir, criar, pensar, organizar, imaginar, silenciar, agradecer ou qualquer coisa que te der vontade; qualquer coisa que sua acenar de dentro de você pode ser feita.

Algumas pessoas talvez se sintam impelidas a dizer que isso é fuga de realidade. A realidade é a história que nos contamos. Real é tudo que tem vida. E você pode contar uma história com elementos e singularidas especiais — e não com invenções. São situações completamentes diferentes; são escolhas completamente opostas. Escolher viver com encantamento é escolher uma vida com presença, com subjetividade. É transformar o ordinário em extraordinário, e isso só é possível quando estamos ali por inteiro; quando fazemos o necessário com o máximo de detalhes absurdamente inúteis e irrelevantes, mas carregados de alma e coração.

O valor que você dá às coisas vai compondo o valor que você dá à sua vida. Viver é difícil. Muito difícil. E a gente perde tanto tempo e ainda vai perder outro tanto. Alimentamos nossa vida toda vez que criamos algo onde antes não havia nada. Isso transforma tudo.

 

 

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Como habito o mundo?

Ocupar. Habitar. De que modo vivo? Como cuido do agora? Como habito o meu agora? São contemplações que enchem minha cabeça de perguntas e de certezas ao mesmo tempo. Depois de muito sentir, percebo que eu habito o fora do mesmo modo como habito o dentro. A mesma atenção que eu lanço pra fora de mim, eu também lanço pra dentro — o modo como eu faço uma coisa é o modo como faço todas as coisas.

Para habitar eu preciso de confiança. E essa confiança só pode nascer dentro de mim. Eu só consigo lidar com o “lá fora” se eu cultivar, dentro de mim, minha morada. Em tudo há que se encontrar equilíbrio, e isso inclui a forma como habitamos o mundo lá fora e o nosso mundo aqui dentro.

Isso é cuidar. Isso tudo é cuidado. É amor. É envolvimento. Cuidar demanda energia. Demanda inteireza, entrega. O cuidado não é produtivo — pelo menos não pra uma sociedade que valoriza tanto o produto material. Muito pelo contrário: ele pode ser desgastante. E por isso é tão fugidio, por isso nos escapa tanto. De tanto olhar pra fora, de tanto anseio por produzir, acabamos deixando pra lá o cuidado com nossa confiança que vem de dentro e que nos sustenta na vida lá fora — afinal, pra que usar meu precioso tempo olhando pra dentro se eu posso estar fazendo algo que me traga retorno financeiro ou que, ao menos, sirva para a alimentar a exibição desse espetáculo da vida compartilhada que criamos (se o outro não vê o que estou fazendo, não tá valendo). Toda força vem de dentro. Nós só vamos conseguir encarar o mundo se alimentarmos e nutrirmos nosso interior. A volta pra dentro de si mesma dá novo ânimo, novo fôlego, nova coragem.

A volta periódica ao estado selvagem é o que reabastece suas reservas psíquicas para seus projetos, sua família, seus relacionamentos e sua vida criativa no mundo objetivo. Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando.

— Clarissa Pinkola Estés

“Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando”. Uma vida voltada só pra fora cansa — assim como uma vida voltada só pra dentro também cansa. Viver é essa fluidez entre o fora e o dentro. É uma fluidez constante, que nunca cessa. Fluir é um gesto de cuidado e, portanto, improdutivo — e por isso mesmo ele vai exigir de você. Vai exigir desapego e inteireza. O cuidar é uma construção ativa que perpassa o cotidiano. Tudo, o tempo todo, precisa de cuidado. TUDO O TEMPO TODO precisa de cuidados.

Uma relação viva com o mundo faz com que nós formemos uma composição única com o todo. Não somos subordinados e nem violentos perante o mundo de fora; nós simplesmente somos junto com o lá fora. Expandidos, confiantes, seguros. E isso só acontece se tivermos uma casa pra voltar, um lugar que nos acolha, nos dê confiança e espaço pra construir rituais de cuidado: um lugar quentinho, silencioso, onde podemos habitar, ser, crescer, florescer.

Nós temos o direito de habitar uma vida feita à mão, por nós mesmas. É assim que habitamos — assim habitamos. As experiências mais significativas de nossas vidas são compostas dos momentos realmente habitados por nós: momentos de entrega, de construição, de cuidado, de decisão. O prazer de fazer com as próprias mãos, de escolher, de renunciar, de se posionar. Uma vida feita à mão é uma vida habitada no interior; é fluida, constante, silenciosa, cuidadosa. Sua casa apoia e facilita sua passagem no mundo lá fora —e você é sua casa.

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revisitar-se.

Há um momento na vida em que olhamos pra dentro e começamos a mudar tudo de lugar, e isso é, quase que na mesma proporção, gostoso e doloroso. Crescer é isso — crescer direito é isso: voltar pra dentro de si mesmo constantemente e mudar, ainda que com medo, o que precisa ser mudado.

A vida é um eterno ciclo de nascer-morrer-nascer. As coisas precisam morrer. Você precisa morrer muitas vezes na vida para que possa nascer e renascer e florescer. Nunca acaba. E a morte, convenhamos, mexe muito com a maioria de nós. Ela dói, ela provoca, ela mostra coisas que queremos esconder. A decisão, no entanto, é e sempre será nossa: o que vai e o que fica depende somente da gente, de cada um de nós. Nós somos nosso próprio oráculo.

E é difícil revisitar-se. Difícil, chato, assustador. Sabe quando você se acostuma com tudo que te cerca e, automaticamente, o que os outros dizem parece ser sua verdade quase que por osmose? Você não critica nada porque tudo aquilo parece muito certo. Você não pergunta pra você mesma se aquela é realmente sua convicção porque, de fato, parece muito ser a sua convicção. A gente se acostuma com o meio. A gente absorve mais do que imagina. E isso, em algum momento, parece muito natural. Mas só é natural por conveniência. Só é natural até o dia em que você para, reflete, e se dá conta de que tá reproduzindo qualquer coisa que te digam sem nem pensar naquilo. Mas não tem nada de normal nisso, mesmo que pareça.

Revisitar-se implica mudanças. O que você escolhe mudar é problema seu, mas saiba que isso afeta toda a sua vida, por mínima que seja a mudança. Isso não mexe somente com você, mexe com todos que estão ao seu redor. E as pessoas não gostam de mudanças (talvez você não goste de mudanças). Mas há um momento muito crítico na vida em que você precisa escolher quem você quer agradar e isso é um saco porque vai derrubando as suas próprias máscaras (você nem sabia que usava tantas máscaras assim, né?). E você se dá conta do papagaio que mora em você: sim, talvez você só esteja reproduzindo o que todo mundo fala sem questionar. E você pode concordar com o que todo mundo fala desde que você PENSE. Nunca, jamais, por conveniência. E o ser humano é um baita bicho conveniente. A gente ama se sentir seguro.

Todo mundo tem seu tempo. Quando eu descobri (e ainda continuo descobrindo) que é um direito meu questionar o que acontece a minha volta eu fiquei chata. Acho que vamos atingindo extremos até chegarmos, finalmente, no equilíbrio — e não tenha medo de ir pro extremo quando você precisar, talvez esse seja seu caminho de aprendizando que o conduzirá à ponderação. A gente fica meio cricri quando começa a perceber que nada do que falam (e que você reproduzia até agora) faz mais sentido pra você. E há que se tomar cuidado aqui, também: respeitar o outro é tão necessário quando respeitar-se a si mesmo, senão caímos em um discurso de hipocrisia e (de novo) conveniência. O outro que reproduza o que ele quer, afinal, a vida é dele e cada um faz o que bem entender. Mas eu, particularmente, acho uma baita dormência só aceitar o que te falam sem consultar suas próprias fontes. Pergunte pra você, mastigue as coisas antes de digerí-las (ao invés de aceitar o que os outros já te dão mastigado), faça suas pesquisas, estude, vá atrás do que te interessa. E, se for preciso, fique quieto. Talvez ninguém entenda e nem aceite. Mas a vida é sua. Será que temos noção de que realmente só temos a nós mesmos? 

Revisitar-se é seu próprio ato de rebeldia contra seus conceitos. O tempo vai passando e já vamos formando tantas opiniões que, depois de formadas, deixamos ela num canto e não as alimentamos mais. Será que as coisas deveriam funcionar assim? Eu acredito que não. É um constante processo de ida e vinda, assim como quase tudo na vida. Isso inclui também reaprender a ouvir (a si mesmo e aos outros). Ouvir os outros não é um problema, desde que você questione e entenda que o que sai da boca de alguém não é nenhuma lei; antes de tomar como verdade, consulte-se. E tudo isso é aprender a ouvir. Como você escuta os outros?

Viver com os outros e fortalecer relações é importante, mas sua solitude é mais importante ainda. Você só vai se revisitar sozinho, sem dar as mãos pra ninguém. E não há nada errado com isso. É sozinho que você vai descobrir o que precisa morrer e o que precisa renascer. 

Continue a reflexão aqui: <3

Concentre-se no que importa.

O que teu barulho cala?

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o modo como você faz uma coisa é o modo como você faz todas as outras.

Como você lida com as coisas grandes é como você lidará, também, com as pequenas. A atenção que damos pro pequeno mostra como cuidamos do grandioso. Não há separação, há apenas você. Nós nos colocamos pra fora em cada decisão tomada, em cada escolha de palavras, em cada sentimento expressado. Isso equivale a dizer que “se você é fiel no pouco, você também será fiel no muito”. As coisas funcionam assim.

O grande está recheado de um monte de coisinhas. Caso não haja coisinhas dentro da tal coisa grande, ela não passará de um grande vazio. E o que é um grande vazio? É nada, apenas vazio. A nossa felicidade não depende do tanto de coisas imensas que conquistamos, mas de como cuidamos dos detalhes: afinal de contas, eles é que formarão nossa imensidão.

Como você cuida das sutilezas do seu dia-a-dia? Como você celebra a existência dessas pequenezas? Se não soubermos cuidar do pequeno que nos é dado, não saberemos cuidar do grande — que pode ou não chegar. Não adianta passar uma vida inteira alimentando ilusões vazias pois nossa existência não é sobre elas. Nossa existência é sobre colecionar – com o mais amoroso desapego – coisinhas. O modo como as vivemos é o modo como viveremos as coisonas.

Um brinde às coisas pequenas. Que elas nos inundem a vida. Que nós saibamos olhá-las com afeto. Vivê-las com afeto. Sentí-las com afeto. Que não esperemos o extraordinário chegar para colocar pra fora o que há de mais belo dentro do nosso peito — que sejamos capazes de fazê-lo com o mais minúsculo acontecimento.

E tudo isso diz tudo sobre quem somos. O modo como você faz uma coisa é o modo como você faz todas as outras.

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Inspira e solta.

Amadurecer é um processo muito louco. Você acaba lidando com partes de você que achava que estavam bem enterradas e acaba descobrindo que o que estava escondido é, na verdade, essencial pra sua sobrevivência. Amadurecer é jogar luz sobre as sombras e querer enfiar a cabeça debaixo da terra porque — caraca, vai dar trabalho demais lidar com isso — e mesmo assim continuar.

Acho mesmo que o amadurecimento é tipo uma volta pra casa, uma volta pra si mesma. É quando você aprende a se carregar no colo e a se cuidar amorosamente. É quando você segue seu instinto mais selvagem, ainda que isso venha a custar muito. É uma escolha que precisa ser feita diariamente. Crescer é limpar a sua própria casa interior e enfeitá-la como bem entender. Só que, para que a limpeza possa ser feita, o contato consigo mesma é essencial. O contato consigo mesma cura e dá um baita suporte para sobreviver no mundo. Contemplar, criar, meditar, rezar, ler, escrever, silenciar. Qualquer coisa é válida para se conectar a si própria.

Quando a gente cresce a inconstância da vida é gritante. A gente se dá conta de que as coisas vão fugir do controle, de que as coisas não saem sempre como esperamos, que as pessoas não estão aqui pra nos agradar, que se privar do seu instinto é besteira e tantas outras coisas. É subir e descer sem parar. E ficar bem com isso é entender que precisamos nos manter firmes assim mesmo. Não existe outra opção. Inspira, solta e segue. Afinal de contas, a vida-morte-vida é nosso ciclo natural.

Perguntar-se e sondar-se acerca seus reais desejos da alma também faz parte da evolução de cada um. Quando estamos em contato contínuo com a nossa essência a gente aprende a esperar por aquilo que realmente desperta nossa alma e a toca lá no fundo. Muitas vezes a espera significa um grande respeito por si mesma. Porque você se conhece, você sabe o que quer e o que não quer; porque mantém contato com sua essência, escolhe com mais prudência suas atitudes e companhias. Gente enfadonha e situações idem não merecem nossa fixação e atenção. É muito difícil desprender-se disso e, portanto, é um processo. Como tudo na vida — absolutamente TUDO — pr que algo possa nascer, algo precisa morrer. Assim, respira e solta. Guarde o que é bom, solte o que for ruim. É só por meio desse ciclo que as coisas começam a se encaixar e sua resiliência, a se fortalecer.

Floresça e dê à luz sempre que tiver vontade. Como adultas, precisamos muito pouco de licença, mas, sim, de maior criação, de maior estímulo dos ciclos selvagens. O que deve morrer morre. Todas nós sabemos no fundo de los ovarios quando chegou a hora da vida, quando chegou a hora da morte. Podemos tentar nos enganar por vários motivos, mas sabemos.

— clarissa pinkola estés

Pra mim, o mais difícil de encarar na fase adulta é exatamente a impermanência e a inconstância de tudo. Da vida, do humor, do amor, da mente, do medo, do sonho, da dualidade. As coisas morrem. As coisas mudam. As coisas complicam. E a inconstância é sempre uma constante. Ela tá sempre presente nas nossas vidas. O ar entra e logo ele sai. As flores nascem e logo caem. A gente nasce e depois morre. A gente sonha e depois acorda. A gente tem medo e logo encara. É tudo assim. Tudo meio dual, meio louco, meio fora de controle. E é somente aceitando essa dualidade que encontraremos, dentro da gente, o fio condutor de tudo isso, a união do que está separado.

O poder de ser dois é muito forte, e nenhum dos dois lados deve ser negligenciado. Eles precisam ser alimentados da mesma forma, pois juntos proporcionam ao indivíduo poder excepcional.

O poder da dualidade está em agir como uma entidade única. É entender que toda essa bagunça faz parte da mesma coisa e pode nos levar ao mesmo lugar. Equilibrar. Equilíbrio. Saber dosar, saber unir. Unir e manter. Manter e soltar. Soltar e pegar. Pegar e unir. Unir e desunir. Desunir e manter.

Que saibamos perder o controle e soltar. Que saibamos ter controle também. Que entendamos que pra nascer, tem que morrer. Pra inspirar, tem que soltar. São tantos os ciclos… A única certeza é a de que precisamos encerrá-los antes de abrir novos. Fecha o antigo primeiro pra depois abrir o novo. Que não atropelemos os tantos processos pelos quais passamos. Que sejamos pacientes, mas também ousados.

Que sigamos nossa intuição.

Sempre. Sempre. Sempre.

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Concentre-se no que importa.

Eu sempre disse que meu maior medo era chegar na velhice, olhar pra trás e perceber que não vivi de acordo com meus princípios. Desde muito nova eu convivo com essa agonia e eu sofro muito quando me dou conta de que tô precisando passar muita coisa na frente ao invés de estar fazendo o que quero. Sim, essa é a vida. Temos responsabilidades, quer queiramos ou não.  A sociedade pressiona e a gente acaba sucumbindo. O piloto automático é tão mais fácil. A anestesia é tão mais simples. Não dói. Não incomoda. E a gente vai ficando quietinha, encolhida em nosso próprio mundo, fugindo das dores, das pessoas, das responsabilidades, dos afetos, das intimidades.

Eu venho percebendo que, conforme os anos passam, eu fico mais bruta. Fico mais covarde, também. E muito, mas muito mais inflexível e seletiva. Isso tem um lado bom, não posso negar. Ficamos mais donas do próprio nariz com o amadurecimento. Mas isso também nos afasta de algo primordial: a gente corre o risco de ficar tão submersa no nosso oceano particular, com tanta preguiça e tanto vitimismo que esquecemos de amar. Fugimos da intimidade. E eu cheguei a conclusão de que eu, na minha vida, preciso ter mais intimidade. E também acho que o mundo tá carecendo disso: afeto, olho no olho, profundidade, conexão. E nós vivemos em uma estrutura social que nos afasta cada vez mais. A sociedade e suas criações nos afastam e nos fazem acreditar que melhores sozinhos. Mas nós NECESSITAMOS uns dos outros para viver bem — não no sentido tóxico, mas no sentido afetuoso da coisa toda. Somos completos? Sim, sem dúvidas. Mas qual a graça de viver somente para si? Olhando somente pro seu umbigo? E se você acredita nisso, eu espero que um dia você consiga enxergar isso de forma diferente. Pessoas não são (ou não deveriam) ser tidas como nossas inimigas. Mas é assim que a coisa tá engrenada: nós lutamos pra garantir sobrevivência, sendo que eliminamos qualquer possibilidade de (so)breviver quando o fazemos.

As situações limites sempre nos lembram do quanto precisamos ser íntimos uns dos outros. A doença, a separação, a morte. Nós nos chocamos. Nesses momentos nos damos conta de que algo precisa ser transformado. Na maioria das vezes traçamos um plano que dura um tempo e logo nos esquecemos. Até que outra coisa acontece e revisitamos essa angústia. Mas eu queria saber como faz pra quebrar esse ciclo. E a única coisa que me vem a cabeça é um verbo: agir. Sair dessa inércia e lutar contra ela dia após dia. Visitar a família, ligar pra amiga, ouvir os outros (ouvir mesmo), acolher as dores (as suas e a de quem mais doer), e tantas outras miudezas que podem aquecer nosso coração. De quantos “depois” sua vida é composta? O que você tá enrolando pra fazer? E eu quero propor algo pra gente: vamos. Só vamos. Um pouco por dia. Se não dá pra ver, liga. Mantém contato com as pessoas. Não se isola, não. Esquece isso de ajudar todo mundo: concentre-se no que importa, no que realmente importa. O mundo tá carente de afeto. O MUNDO TÁ CARENTE DE AFETO. Eu sei que somos orgulhosos, vaidosos, medrosos. Eu sou. Eu tenho vergonha de me aproximar das pessoas. Eu tenho vergonha de oferecer ajuda. Eu morro de medo de atrapalhar ou incomodar. Eu me sinto uma criança pequena diante de muitas coisas e eu esqueço da responsabilidade que carrego (que todos carregam) de fazer o bem. Mas quanta oportunidade de fazer o bem eu perco quando me deixo ser vencida por essas noias? Eu prefiro ser tida como boba do que perder uma oportunidade de dar afeto; mas não é assim que as coisas são: eu perco MUITA oportunidade de dar afeto porque eu não me concentro no que verdadeiramente importa.

Nós perdemos tempo com idiotices todos os dias. E lembrar da morte é útil pra abrir nossos olhos. A gente vive como se fosse imortal. E eu sei que é muito fácil falar e que o bicho pega mesmo na hora de agir. Mas a gente precisa agir. Nós não vamos curar o mundo com raiva. E talvez você nem queira curar o mundo; talvez você queira apenas curar uma relação que se desgastou. E, de novo, há que se ter amor. Não há cura sem amor. Não há cura sem amor. Não há cura sem amor. E curar significa recuperação. Recuperar seja lá o que. Não deixa pra depois. Eu não quero deixar pra depois. Sentir que é tarde demais é uma das piores sensações que podemos sentir. E sim, pode ser tarde demais. E daí alguém pode dizer “as coisas são como são, nada é tarde demais”, mas eu digo que é sim. Nada vai alterar o passado, mas ter consciência disso muda tudo; deitar no travesseiro e saber que sua ausência fez falta é horrível. A nossa ausência faz falta na vida dos outros. Nós precisamos de gente para sobreviver. Esse papo de que nascemos e morremos sozinhos não é bom e apenas propaga o individualismo cruel. Cruel. Se afastar das pessoas por pura preguiça é crueldade. Se ausentar porque não deu tempo é crueldade. Deixar pra depois é crueldade.

Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.
Concentre-se no que importa.

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O que teu barulho cala?

Os ruídos da vida são altos demais, convenhamos. É gritaria pra tudo que é lado. Mas e aí dentro, como andam as coisas? Você está se ouvindo? Se amando? Se conhecendo? Ou você tá correndo dessa confusão toda aí de dentro usando o barulho como válvula de escape? Pois é, isso acontece muito. Mas poderia — e pode — ser diferente.

Nós estamos realmente acostumados com o barulho. Prova disso é o espanto que o silêncio nos causa. Já percebeu isso? Puxamos qualquer assunto com qualquer pessoa, mas o silêncio precisa ser evitado. Ele incomoda e parece que aumenta o volume de tudo. Então nós damos piruetas para evitá-lo. E sozinhos? Bem, sozinhos fazemos o mesmo. Para não vivê-lo, colocamos sons mais altos ainda ao redor da gente.

Celular. Internet. Músicas. Vídeos. A gente não para quieto! É toda hora algo diferente, um barulho a mais. A busca por mais informação, conhecimento ou seja lá o quê for. Tudo continua igual: continuamos a buscar fora. Sempre fora. Opiniões. Aprendizados. Qualquer coisa. Mas e o que você pensa? Qual sua opinião? O que você já sabe? Como tem se sentido? Presta atenção em você, por favor! Precisamos disso. O mundo precisa disso. Não, você não precisa ser individualista e nem se isolar do resto do mundo, mas tenta dar uma equilibrada nisso tudo.

Eu ando meio saturada de informação. Eu sempre chegava do trabalho e colocava um vídeo enquanto tomava banho; eu sempre ouvia uma música enquanto colocava roupa. Sempre assistia um filme quando estava sem nada pra fazer. Mas eu me sentia distante de mim mesma quando essa rotina ficava excessiva. Claro que essa é minha perspectiva da coisa, mas é algo que observo em muitos lugares: as pessoas podem estar sentadas almoçando juntas, mas sempre tem alguém que não sai do celular — nem mesmo pra comer. E vejo pais fazendo isso com os filhos para que fiquem quietos. Céus. Isso me assusta muito. Claro que há exceções; o problema é quando isso se torna regra. Será que estamos vivendo o aqui e o agora? Será que entendemos a dimensão do presente? Será que sabemos ter presença? Por que é que fugimos tanto do silêncio? Por que ficar parados quietos nos atormenta tanto?

O silêncio é nosso amigo. Ele fala o que precisamos ouvir. Através dele é que podemos intuir nossos caminhos e compreender as coisas que estão acontecendo. É no silêncio que as coisas voltam pro lugar onde deveriam estar. É lá que está a resposta pra quase tudo que queremos saber. E isso é tão mais fácil do que ficar buscando aí fora. Mas nós somos mesmo teimosos, né? Complicar coisas é nossa especialidade (hahaha).

Então fica o convite: que saibamos silenciar mais. Ouvir o que está acontecendo dentro da gente. Claro, uma musiquinha é sempre bem-vinda. A diferença é na vida que damos aos momentos presentes: estamos vivendo aquilo ou apenas nos deixando levar? O silêncio nos ajuda a dar vida às coisas. Inclusive mais vida à nossas vidas. Mais presença. Mais vigor. Maior entrega.

Demore-se. Não tenha medo do barulho que o teu silêncio faz — encarar as nossas próprias sombras nunca será tarefa fácil, mas totalmente necessária pro amadurecimento da gente. Entenda o motivo das suas fugas. Quais são os gatilhos? Por que será que a tendência da gente é sempre tentar abafar o que dói ao invés de encarar? Silencia o mundo de fora pra ficar pertinho do seu próprio mundo. Tá tudo aí dentro, e não do lado de fora.

Se não puder melhorar o silêncio, cale-se.

vai ver, você sabe muito pouco sobre você…

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Você não precisa saber onde quer estar em dez anos.

Loucura? Não, não. De fato, você não precisa saber exatamente onde quer estar daqui a algum tempo: dez, cinco, três ou um ano. A vida não funciona desse jeito. Não dá pra bolarmos um script e seguí-lo do começo ao fim sem nenhuma mudança. Isso é insano. Isso engessa demais e exclui muitas possibilidades.

Nós tendemos a planejar as coisas e projetar tudo nesse caminho idealizado, como se o controle fosse estar o tempo todo em nossas mãos e como se nada ruim pudesse sequer interferir. Por exemplo, você já fez alguma dieta na vida? Provavelmente, sim. E muito provavelmente, também, no dia em que você optou por fazê-la, você visualizou esse processo mais ou menos assim: “nossa, eu vou ser tão fitness, mas tão fitness que eu vou resistir a tudo e as pessoas vão ficar muito chocadas com tamanha força de vontade”, ou, então “nossa, eu vou malhar todos os dias, não importa o clima e nem meus compromissos; eu vou acordar muito cedo e com todo ânimo do mundo — NADA vai me deter”; ou, ainda “putz, quando eu tiver esse emprego eu vou ser tão feliz que eu vou acordar sozinha sem despertador e eu não vou querer faltar nunca porque ele vai ser a coisa mais foda de todas”. Qualquer exagero e idealização cabem aqui. Sinta-se a vontade para criar seu exemplo.

E, cá entre nós, não é assim que a vida funciona. Você pode sim priorizar algum aspecto na sua vida e deixar pra lá outras coisas enquanto persegue aquele objetivo. Mas não vai ser perfeito. O caminho não é perfeito e nem precisa sê-lo. A graça do processo é aprender a cair e a levantar logo em seguida. E não evitar quedas a todo custo.

Ao invés de evitar a queda, aprenda a cair direito: ou seja, levantando em seguida.

Nós cobramos muito dos outros e da gente também. Falta compaixão e benevolência. A gente projeta muita coisa nas pessoas e nos sonhos e em como os realizaremos. Pode ser que seja realmente fácil, mas pode ser que seja difícil e que seja um processo diário de tomada de consciência para processar seus atos, um após o outro, e talvez você precise se lembrar momentaneamente do motivo de estar fazendo tal coisa. Nós somos humanos, e isso significa que nos iludimos aqui e ali. Sabe aquele emprego dos sonhos? Você não vai conquistá-lo e automaticamente todos os seus problemas acabarão. Sabe aquele amor que você tanto deseja? Ele também não vai te iluminar e deixar a vida mega doce e perfeita do tipo meu-deus-por-que-eu-recamava-da-vida-estou-no-paraíso. Não, não, não. Não é assim que a vida é.

Portanto, onde você quer estar daqui a dez anos talvez não importe tanto assim. Claro que devemos buscar nos conhecer para saber o que nos deixa felizes e bolar planos é realmente importante; as metas e os objetivos nos lembram do que queremos e nos disciplinam, mas eu realmente acho absurda essa cobrança por controlar todos os passos do futuro e ainda mais a cobrança em se saber onde se deseja estar daqui a algum tempo. No fundo, nós sabemos (principalmente) onde não queremos estar, certo? E a gente faz sim ideia do que queremos estar fazendo. Mas façamos juntos um exercício aqui e agora: olhemos para trás. Dez anos atrás. Quais eram seus sonhos? Onde você imaginou que estaria agora? Você consquistou tudo o que quis? Você ainda quer o que outrora desejou? Quantos imprevistos aconteceram? Quantos atalhos você pegou? Quantas vezes mudou de direção?

Bom, eu sei que praticamente nem lembro tanto assim do que eu queria dez anos atrás — lembro de pouca coisa. Conquistei algumas, mas outras ambições nem me servem mais. Eu precisei deixá-las para trás e isso foi um ato de amor por mim mesma. Desapegar de sonhos pode ser frustrante? Sim, e muito, mas é uma eterna redescoberta, sabe? Nós falamos tanto em mudanças,  em metamorfoses… Então como que podemos apoiar as mesmas coisas de sempre? Nós mudamos o tempo todo. O tempo todo nós mudamos.

Eu sempre fiquei meio blé quando alguém me perguntava isso e eu não sabia responder. Me sentia irresponsável, meio que sem metas e indisciplinada. Daí automaticamente eu pensava que “meu deus, eu não sei qual estrada quero trilhar, então eu vou acabar tomando qualquer uma e ser uma fracassada”. Puta que pariu. Que cobrança é essa? Eu não sei mesmo onde quero estar daqui a dez anos, mas eu garanto que vou ser muito fiel a mim mesma nesse meio tempo (não perfeitamente, óbvio, mas o melhor possível). Entende? Só o fato de eu me respeitar, em acolher e me amar meio que garante que eu não vou andar em qualquer estrada. Então talvez eu não precise de grandes planos e nem de ambições gigantes. Basta colocar meu coração e inteligência em minhas escolhas que as farei bem — sejam elas grandes ou pequenas. 

Pode ser que você realize os sonhos que carrega consigo agora, mas pode ser que daqui a dois meses eles não lhe façam mais sentido. E aí? Você vai se martirizar por isso ou vai aceitar sua transmutação? É foda, né? Não é fácil. Nós nos apegamos até nos nossos desejos. Mas eles também vão e vêm. Não há nada errado nisso. Você tem o direito de mudar. Trace planos, mas não se apegue tanto assim a eles. Não deposite esperanças de dias melhores em cima de objetivos futuros. Não projete o melhor que você pode ser em coisas que ainda nem aconteceram. Seja feliz com o que você tem e é agora. E saiba que esse “seja feliz” inclui dias péssimos e totalmente cagados e complicados. É assim mesmo. Ser feliz não é um ato constante. Aquele papo de que para ser corajoso é preciso estar com medo é quase a mesma coisa: para ser feliz você precisa saber o que é tristeza. Para caminhar você precisa se perder. Para saber o que se quer é preciso deixar pra trás o que se queria.

Continue refletindo comigo 🙂

a gente nunca sabe nada.

Dadme la muerte que me falta.

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pequenos passos

Definitivamente, uma das piores sensações que podemos sentir é a estagnação. É muito difícil perceber-se travado. Difícil e, ao mesmo tempo, doloroso. É nesse momento que a gente fica cara a cara com nossas sombras. Sentir-se parado na vida nos revela muitas ansiedades: a gente nunca tá satisfeito e a gente sucumbe facilmente às pressões externas e às ambições internas.

Eu sempre quis abraçar o mundo. Quero tudo e quero ao mesmo tempo. Quero estudar tudo, quero aprender tudo, quero guardar dinheiro, quero gastar, quero ler mil livros. Resultado? Não faço nada (ou faço pela metade). Enquanto nos preocuparmos mais com grandes passos, mais esqueceremos da importância dos pequenos — são eles que nos levam para longe. E sim, ter consciência disso não é nada fácil.

E eu penso muito nisso: pequenos passos. Por que eles me assustam tanto? Por que quero passar por cima deles? Por que quero logo me arriscar no grande? E, lá no fundo de tudo, deparo-me com meu ego. Sim. Meu ego quer ter tudo pra já. Caso contrário ele se sente derrotado e fracassado. Ilusão das ilusões.

Pega leve — digo a mim mesma. Faça poucas coisas, mas as faça bem. E me lembro que é preciso calma e tranquilidade. Nada com pressa. Mudanças efetivas levam tempo. E respeitar esse tempo é respeitar as fases da vida, também. Quem muito fala pouco faz. Quem muito quer pouco tem. Quem só se preocupa com os grandes passos jamais conseguirá dar os primeiros. E é preciso ver em quais aspectos da vida somos nós os faladores. E nossa tendência é negar, mesmo. É bem mais fácil. A vida acontece fora da zona de conforto — e lutar contra si mesma e sair da zona de conforto também é um belo ato de autocuidado. Fazer renúncias a si mesma, ouvir o seu coração, ter paciência, agradecer o que já se tem e entender que você está onde precisa é um treino diário. Todos os dias a gente precisa se lembrar que a vida nos traz os mestres que a alma precisa nesse exato momento. Então vive o que tá aí na sua frente. As coisas vão andar, você vai chegar onde precisa chegar. Tenha calma.

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O mais bonito e difícil disso tudo é aceitar que cada um tem uma vida, uma dor, um amor. Eu posso estar lutando contra isso e você não e, mesmo assim, isso não me diminui diante de você. Você pode enfrentar tormentas que eu não enfrento, e isso não me engrandece. E por que será que é tão fácil nos esquecermos disso? Nós não ficamos pra trás, mas nos sentimos perdendo a corrida. Mas qual corrida? Quem fez as regras e por que é tão difícil quebrá-las?

Essa semana eu li algo muito bonito e era mais ou menos assim: o ponto da vida não é tentar apenas amenizar nossos sofrimentos, mas, ao invés disso, procurar mais alegria. Mudar o foco, a perspectiva. Ao invés de olharmos para o que sangra, vamos encarar o que cicatriza. Talvez a gente perca muito tempo querendo mudar e esquecemo-nos de aproveitar as pequenices da vida que nos inundam a alma. A questão não é e nunca foi ter tudo.

Continue lendo:

autocuidado.

estar vulnerável é assustador, mas tudo bem — esteja mesmo assim.