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Crônicas do Cotidiano

talvez viver seja crescer.

A vida vai passando e a gente vai se percebendo cada dia mais. É realmente difícil lidar com tudo que temos aqui dentro. É complicado aceitar seus defeitos e suas limitações em meio a tanta competição e caos e tumulto. É chato pra caramba descobrir que muitos de seus sonhos não lhe vestem mais e que é hora de abrir mão de tantos apegos que colecionamos ao longo da vida. A gente cresce com a plena convicção de que as coisas sempre se resolvem no final e de que todos os finais sempre serão felizes. De fato, as coisas podem sim se resolver, mas o que muita gente esquece é de que as coisas só se resolvem se você se resolver. E, falando muito sério, resolver-se não é nada fácil. Viver em sociedade é apavorante e confuso. As situações e as pessoas podem nos mostrar quantos demônios guardamos escondidos dentro do peito; quantas máscaras vestidas; quantas ilusões; quantas mentiras. É fácil estar em paz quando se está isolado, sozinho — afinal de contas, na solidão não nos vemos refletidos nos outros. O desafio mesmo é lidar com essas guerras que nós mesmos criamos e depois choramos para sair dela. Bizarro, né? O ser humano é realmente bizarro. A gente entra em cada beco, em cada furada. E o mais engraçado é que nós criamos essas situações. Nós criamos a competição, a burocracia, o comportamento adequado. Nós inventamos tudo isso e depois pedirmos pra sair pelo-amor-de-deus. Mas talvez as coisas tenham que ser assim, mesmo. Talvez estejamos exatamente onde temos que estar. Ou será que talvez estejamos todos cegos? Chega um momento em que o medo de deixar a vida pra depois te paralisa e você fica meio cagão. Não serve mais qualquer pessoa. Não pode ser mais qualquer lugar. Ficamos mais cuidadosos com o que vai e o que fica. Mas a sensação de “será que eu preciso dispor tanta energia pra isso mesmo” nos acompanha sempre — e se todo mundo, de repente, parasse? Tipo aquela música do Raul, sabe? Nós inventamos essa confusão toda e não conseguimos sair dela. A gente mente pra todo mundo o tempo todo e mente pra si mesmo mais vezes ainda. É bem caótico. É bem engraçado, lá no fundo (bem no fundo). Nós inventamos e nós mantemos tudo isso. Acho que talvez gostemos disso. Talvez esteja tão impregnado que não existiria outra saída a não ser participar. Sei que isso tudo parece mega pessimista, mas têm dias em que a gente se sente cinza. E acho que tudo bem. Talvez deva ser assim mesmo. Crescer nunca foi nem nunca será fácil. E é meio que algo inevitável, sabe? Tdo mundo passa por crises e momentos difíceis e tanta gente nos dá receitas “prontas” e já sabemos tanto sobre como levar uma vida mais leve e mesmo assim, em vários momentos, as coisas passam a ter um peso quase que insustentável. É tipo aquela frase do Criolo “Deus sabe sempre o que tá fazendo,  e mesmo sabendo disso eu sofro, vai vendo”. Dá pra entender? A gente sabe tanto, mas nunca é fácil. E o mais bonito, talvez, no meio disso tudo, é saber que a gente sempre dá conta. A gente sempre encara — as vezes a gente foge também, isso é certo. Mas a fuga ás vezes é a forma de lidar naquela situação. Sâo tantas as possibilidades que cabem em uma vida… Eu diria que são quase que infinitas, na verdade. Cada segundo pode nos levar a um lugar diferente. Isso é MUITO louco. E pra não enlouquecer, melhor mesmo ter fé que estamos onde devemos estar. E ponto. Não se fala mais nisso.

Natalie Foss menina com quatro olhos.

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evaporar.

Casal se beijando dentro do carro.

De todos os clichês, você me confirmou que a forma como as pessoas saem de nossas vidas diz muito. Diz tudo. Você me disse, ao me deixar partir daquele jeito, quão pequena você me enxergava. O vazio que sempre senti ao seu lado ficou muito bem explicado. Você não tinha nada para oferecer. E eu tinha. Eu tinha muito. Mas meu tudo sempre se esbarrava em seu nada. Vazio. As pessoas não podem dar o que elas não têm. Mas, afinal de contas, quão vazia uma pessoa pode ser? Você me ensinou que muito. E com você eu aprendi que preciso me lembrar de ser corajosa. Sim. Eu sentia o vazio. Eu sentia a falta. Eu sentia o nada que vinha de você. Mas a gente finge que não é com a gente. A gente acha que a pessoa vai cair em si, que vai ver o tamanho de coisas lindas que você tem pra dar. Mas não. Quem não tem nada, não pode oferecer nada. Não se engane. Tenha coragem de ouvir sua intuição. Não fique onde não há entrega. E relaxa. Não é a pessoa que te faz amar ou te faz melhor ou qualquer baboseira do tipo. Ninguém faz ninguém ser nada. Você é o que é e ponto. Você ama porque o amor está em você. Você é capaz de amar o universo com tudo que carrega no peito. Então não venha me dizer que são os outros que lhe despertam amor. O amor está em você. Você é uma dádiva. Não se diminua pra caber no mundo de alguém. Se a pessoa não sabe te terr por lá, que assim o seja. Por amor ao seu amor, por amor ao que há de mais belo dentro de você, vá embora. O amor é um grande clichê. Ele sempre te eleva. Ele sempre te lembra que não há perdedores quando se sente. Não tem como perder quando se ama. Só quem não ama perde. Só quem não sabe receber e dar amor perde. E isso sempre será uma opção. A coragem que precisamos ter vai além dessa busca tola que travamos a vida toda ao acreditar que encontraremos a pessoa perfeita. Amor se constrói. Amor é tijolo por tijolo. É carinho por carinho. É afeto por afeto. Intimidade por intimidade. O amor demora. Amor não vem pronto, não. Será que você sabe disso? Será que você quer saber? Sabe aquele papo “não é nada com você, sou eu”? É a mais pura verdade. Sim, somos todos livres para ir e vir, ficar ou partir. Mas a covardia é o que mais me preocupa. A indecisão é o mais irritante. Pessoas mornas, fracas. Que lutam somente quando lhes convém; que querem somente quando vale a pena. E que sempre te deixam pra depois. E que sempre tentam te diminuir. E te cozinham lentamente. Elas gostam de te ter por perto mas não cuidam. Elas não sabem o que sentem. Elas nem se conhecem. Eu tenho verdadeira preguiça de gente que não se conhece e não se esforça pra isso. Acabou que, de todos os clichês, o mais latente é a preguiça que sinto de você.  Acredito em ações, não em palavras. Eu estaria morta de fome se não tivesse tido coragem o suficiente pra te deixar pra trás. E finalmente você está aí, bem atrás. E eu to curtindo meu próprio banquete.

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a gente nunca sabe nada.

75/100 of #100daysofhair For fancy hair, just shove a bunch of bobby pins in there and hope for the best.

Depois de um tempo as coisas parecem fazer sentido. Começamos a aceitar que tudo é um ciclo e que viver é grandioso demais pra tentarmos controlar tudo o que nos acontece. A vida não costuma esperar. Ela é impaciente. E ela não aceita metades. Quer dizer, ela até aceita, mas ela sempre cobra caro depois. E ela continua sendo grandiosa. A beleza é realmente sentida em doses pequenas e ela está por toda parte. A dor costuma chegar feito vendaval, mas ela sempre vai embora. E nesse vai e vem a gente percebe que não dá pra saber de nada. A vida é grandiosa e é surpreendente. Ela sabe te deixar com a boca aberta. Ela adora pegar suas certezas e virar do avesso e te fazer rir da sua ignorância. A vida é grandiosa e surpreendente e por vezes irônica. A vida é mãe. Ela nos quer bem, mas ela nos quer fortes. Ninguém passa ileso por ela. Viver é uma constante surpresa. Ora boa, ora não tão boa. O gelo na barriga é garantido. A gente tem que se acostumar, cara. Não adianta. E a gente vai pegando a manha, também. Apesar de relutantes, vemos que não adianta. Simplesmente não adianta perder tempo com travas e barreiras. Só vai. Deixa a vida fluir e seguir o fluxo que precisa ser vivido. As situações sempre nos são convenientes. Pode parecer que não, mas há luz em tudo que nos acontece. Sei que a teimosia grita e berra dentro da gente. Mas com o tempo ficamos mais maleáveis. Não sabemos nada. Nunca saberemos nada. Percebe? Dá pra ver como é inútil se preocupar com o que foge do nosso controle? E a vida é meio descontrolada mesmo, cara. Nem coloque energia numa tentativa frustrada de moldar as coisas. Lembre-se: a vida sabe ser irônica… Ela até deixa a gente pensar que temos controle, mas depois ela dá uma leve puxada no tapete (sem maldade), nos coloca no lugar e sussurra “calma, garota, confia”. Não sabemos de nada. Portanto, confie. Não tente controlar. <3

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carta ao amor.

Vou te acompanhar nas suas nuances, vou me interessar por seus novos gostos e por suas novas curiosidades. Vou dançar conforme a sua música e você também vai dançar conforme a minha. Vamos aprender juntos, vamos doer juntos, vamos querer juntos, vamos descobrir juntos.

Mas só me prometa: seja você.

Quero saber dos seus gostos favoritos, das suas comidas, das suas cores, dos seus sons, das suas dores.

Eu quero estar onde está seu coração. Eu quero verdades — não quero conforto. Eu quero aventura. Eu quero o pedaço inteiro, eu quero tudo o que há de mais belo e também o que há de mais feio.

E eu peço o mesmo: queira o meu tudo, assim como quero o seu. Não quero contratos, não quero desculpas, não quero obrigações. Quero, acima de tudo, a nossa liberdade.

W A O W

Quero que você voe. E eu vou voar também. Tão alto. Muito alto. Vamos nos encontrar lá em cima. E vamos cair, também. E eu vou te ajudar nas suas quedas.

Porém, acima de tudo, eu quero que você sinta suas verdades. Quero que você acredite nelas e que sempre — sempre — siga seu coração. Que sua essência seja impenetrável.

Eu não quero nada além de você. Só você. Tudinho. Sem máscaras, sem fingimentos, sem medos.

Não se preocupa, não: eu não preciso concordar com tudo. E você também não precisa concordar comigo sempre. Eu só quero o seu bem. Quero troca, quero naturalidade, quero verdade. Não vamos forçar a barra, tá? Não vamos exigir o impossível, não vamos agir por vaidade ou por egoísmo.

A vida é tão imensamente sábia, tão galantemente esperta. Vamos deixá-la agir. Não vai por impulso, não. Caso prefira, nem precisa ir. Fica. Escute-se. Respeite-se.

Meu único pedido: seja você mesmo.

Venha em tempestades, venha em marolas suaves. Venha quente ou venha me fazendo bater o queixo de frio. Ou não venha.

Só seja você.

Que eu não precise te modificar pra te amar. Que você seja inteiro longe e perto de mim. Que brilhe do meu lado ou ao lado de outros. Mas que brilhe, que seja inteiro, que seja incrível.

Você é incrível. E eu não desejo nada menor do que isso.

Sendo você, venha o que vier, custe o que custar.

Ninguém rouba nada de ninguém. Ninguém suga, ninguém sufoca. Eu só lhe peço: continue sendo você, haja o que houver.

Por você, para você, com você.

Livre pra ficar e livre pra voar; livre para amar e, igualmente, para não amar.

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você é o universo.

O dia amanhece gelado e ela levanta pra tomar o café. No céu, algumas nuvens cinzas; no coração, o arco-íris inteiro. Sim, a vida é feita de altos e baixos; e não, nada surpreendente havia ocorrido. E mesmo sem grandes motivos acordou com vontade de colorir. Só isso.

Menina abraçada com nuvens,

Colorir suas ações, primeiramente, pra depois pensar em colorir a de outrem. Acho que finalmente percebeu que dentro dela existe um universo inteirinho esperando que ela note que não precisa tanto assim do que vem de fora. O que tá lá fora é só um complemento, não a base toda. O que vem de dentro é a essência. E ela se amou.

As situações da vida ocorrem como devem ocorrer. Você enfrenta o que precisa enfrentar. Os padrões se repetem porque você precisa melhorar a forma de encarar aquilo. A vida, lá no fundo, é bem simples — nós é que a complicamos.

Quantas perspectivas, quantos contextos, quantas diferenças, quantas igualdades. Quantos universos habitando o universo. Você é o universo. E ela viu que também era. Porém, não basta apenas dar-se conta disso — e preciso vivenciar essa vastidão que mora dentro da gente.

E de tanto tentar, conseguiu. Sentia a imensidão habitando dentro dela e percorrer suas veias. A vida flui. A gente encara. A gente tropeça. A gente levanta. E cai de novo. E levanta de novo. A vida é uma luta sem fim. Dê a mão pra resiliência e vai na fé.

E mesmo com problemas, com medos, com (muitas) incertezas, e com um mundo quase totalmente sem cor, viu-se colorida. A vida não é amanhã. A vida não se resume somente aos seus planos e conquistas. As coisas não vão acontecer mês que vem e você não vai ser diferente na próxima semana. É agora ou nunca. Lide com o que precisa ser lidado hoje e agora.

Menina astronauta com flores na cabeça.

Se você morresse agora, como se sentiria? Eis uma boa pergunta pra tentar alinhar sua realidade com seus sonhos. Quem teme a morte é porque, primeiramente, teme a vida. Faça o precisa ser feito hoje e agora.

Em um mundo tão perdido e confuso, busque a cor dentro de você. Seu refúgio não está longe: ele mora aí dentro. As nuvens cinzas podem estar perto, mas mais perto ainda está o arco-íris.

Você é o universo.

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a divindade que nos habita.

Om namah shivaya. Eu honro a divindade que habita em mim. Não importa como denomine essa identidade, o respeito é necessário. Honrar sua divindade é compreender que você é um ser divino — não importa qual seja seu deus e nem como goste de chamá-lo —  e que para honrá-lo, você precisa se honrar primeiro; honrar-se é respeitar suas origens, sua moral, sua essência, sua consciência.

Cada dia torna-se mais frequente encontrar pessoas que perderam a reverência pela vida e, consequentemente, por elas próprias, pois cada pessoa é vida. E não apenas pessoas — a vida nos rodeia constantemente — o respeito deve ser geral;  mas para que este seja possível, ele precisa ser primeiramente, individual.

Quem não está feliz não é capaz de fazer o próximo feliz. Quem não se respeita é incapaz de respeitar os demais. Quem mente para si próprio mentirá mais fácil para quem o cerca. Isso tudo é explicado pela falta de honra por si mesmo. Honrar-se é ouvir-se, é compreender-se, é saber estabelecer limites e é encontrar equilíbrio nas dificuldades e nas tentações; honrar-se é contemplar seu silêncio e encontrar nele a força da sua voz, que não precisa ser proclamada para que seja ouvida. 

Continue lendo:

Se não puder melhorar o silêncio, cale-se.

O medo da rejeição e a falta de limites.

 

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o tempo, o crescimento e as mudanças.

As noites de domingo impulsionam os pensamentos dela e o som da chuva lá fora traz de volta memórias dos tempos antigos. Eles sempre dizem que a vida passa depressa e que não há tempo a perder. E ela sentia muito medo de perder tempo. Será que ela estaria perdendo tempo?

É meio estranho ser adulto. É bastante confusa, na verdade, a transição que acontece dentro de si mesmo: deixar de ser quem era pra se tornar quem é agora. Mas quem diabos eu sou, ora bolas? É assustador começa a perceber que não dá pra sustentar verdades que carregávamos e jurávamos jamais abandonar; é esquisito começar a compreender atitudes que antes pareciam ridículas. A mudança sempre assusta. E a vida é feita de tantas (tantas, tantas, tantas, tantas, tantas) mudanças. E tem gente que não vai entender. Nem você vai entender. Mas ninguém precisa entender: você precisa apenas ser sincero consigo mesmo. “Apenas”.

Ela antes sentia que o futuro estava distante; porém, deu-se conta de que está no futuro. Ou melhor: percebeu que não existe futuro. O tempo é traiçoeiro quando questionado; é melhor simplesmente usá-lo do que ficar pensando e matutando sobre a melhor forma de fazer isso. Use-o, apenas. Use-o de modo sincero e honesto. Use-o para ser você.

Não é fácil abandonar a ideia que se cria de si mesmo. É duro perceber que estávamos errado e que não tínhamos noção de várias coisas mesmo jurando o contrário. E a vida dá tapas na cara com maestria: ela pega você e faz você enxergar e lidar com coisas que te dão vontade de sair correndo. E ela vai continuar te dando tapas até você encarar. E encarar nem sempre é fácil. 

Não é fácil, e ela sabia que não seria. Viver é desconstrução atrás de construção atrás de desconstrução. E nós temos que ser desapegados para que a vida nos guie. E temos que ser pacientes para entender que processos e ciclos precisam de tempo. Nós precisamos de muita coisa. E isso confunde. Mas acho que dá pra resumir tudo numa coisa só: sinceridade.

Quando se é sincero muita dúvida some da cabeça. A sinceridade nos leva à aceitação, ao acolhimento, à paciência. E, pouco a pouco, ela foi entendendo isso. Talvez alguns momentos não sejam bons. Talvez algumas situações sejam delicadas. Talvez descobrir crenças negativas seja difícil — e mais duro ainda é destruí-las.

Mas talvez nada disso seja grande coisa. Só talvez, mesmo. Vai ver é só uma lente de aumento que ela colocou em cima dessas questões, vai saber. Não dá pra saber. Pelo menos ainda não.

Por enquanto ela escuta o som da chuva e lembra do passado. E no futuro, isso vai ser o passado e ela também não vai ser a mesma. E a lição da vida é que tudo muda, o tempo todo. Não dá pra se apegar. Mas ao mesmo tempo é preciso se apegar, também. É complicado, né? E talvez, lá na frente, fique um pouco mais descomplicado. Crescer nunca foi fácil, afinal.

Aproveita e vem ler essa crônica, onde também falo sobre mudanças. E nessa aqui eu escrevi sobre a vida adulta (que é foda).

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somos nosso próprio lar.

Seus negros olhos sorriem enquanto toco com suavidade seus cabelos. Deslizo a mão, encontro seu pescoço e te beijo com força. Nossos lábios se roçam e nossos corpos se aconchegam. Seu corpo é meu lar, você é meu lar. Seus cílios – preciosos cílios – fazem um movimento que tranquiliza minha alma enquanto nossos olhares se cruzam, e ao encontrá-los, minha mirada se renova: estou em casa. Suas mãos percorrem minhas costas enquanto você derrama em meus ouvidos todo seu desejo, todo seu amor. Beijamo-nos com mais força enquanto você me puxa mais para perto. Seus beijos percorrem toda minha silhueta e, em um gesto gentil, encosta a cabeça em meu peito. Acaricio-te enquanto o sono chega. Lá fora está frio, mas entre nós o calor é intenso. A calma toma conta dos nossos corpos e você está entregue, assim como estou. Beijo-te a cabeça e sussurro o quanto te amo. Apagamos as luzes e fechamos os olhos. Você me devolve o beijo e suspira, voltando a recostar a cabeça em meu peito. Seus braços me envolvem com intensidade e logo se afrouxam. Um último beijo, um último suspiro. Você adormece e seu corpo está acomodado, e eu sei que você também está em casa. Somos nosso próprio lar.

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eu gosto mesmo é do estrago.

Dou mais um trago do meu cigarro enquanto observo a chuva cair. O dia está tão cinza quanto meu coração. Abaixo dos olhos e vejo uma poça que se forma no parapeito da calçada; vejo meu reflexo entre a fumaça que sai da minha boca. Quase não me reconheço;  faz dias que não me olho no espelho. Quer dizer, eu até olho, mas não me enxergo mais.
Desde o dia que ela se foi sinto uma incompletude gigante que me transborda. Não foi a primeira vez que um sentimento infindo me habitava, mas foi a primeira vez que me sentia roubada, com minha identidade borrada.
Ver minha cara me fez perceber que a única culpada nessa história sou eu: se não fosse meu poder de insistência, eu estaria escrevendo dias mais bonitos, mais ensolarados. Mas tudo bem. O que vale mesmo é abrir os olhos – grande começo.
Ah, como demorei! Precisei tragar muita nicotina pra perceber que cigarro nenhum me deixará saciada – minha sede é de outra coisa; precisei me atolar em compulsões bizarras para perceber que o que me mantém pulsando é a maneira como eu me trato e como me relaciono com o mundo. Precisei ingerir muito lixo pra ver que estou perdendo tempo, e me penalizei muito pra descobrir que eu não perdi ninguém e que ninguém é obrigado a ficar em lugar nenhum, com pessoa nenhuma. Ninguém. Pessoas têm o direito de ir e vir, o problema é que amamos errado.
Eu quase desacreditei no amor porque um ser humano não me aqueceu como eu esperava, quase perdi a fé na vida por uma pessoa que não sabe amar. E talvez eu também não saiba amar. Acreditem ou não, o amor, quando real, é libertador. Se tem algo te prendendo, corre se você tá prendendo, deixa a pessoa correr.
Ao invés de me penalizar, começo a enxergar com outros olhos a dor. E eu sigo acreditando, enquanto apago o cigarro, que o desencontro que a fez escapar de mim mesma é um caminho a um novo encontro. Olhei a poça novamente e vi meu reflexo. Agora me reconheci. E é por isso mesmo que eu amo o estrago: ele faz um bem danado.
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você já não cabe mais aqui.

E você sempre resolve voltar com as mãos cheias. Mas será que você ainda não percebeu que já perdeu a hora? Não considero nem atraso mais, porque eu já não vivo te esperando. Até o mais bobo sabe voltar pro seu lugar depois de algumas (ou várias) tentativas frustradas e quedas dolorosas.

Lembra quando eu fui embora de mãos vazias? Aposto que já esqueceu, né? Você fala como se ainda tivesse direitos sobre mim. Vai ver você tenha confundido respeito com interesse. Lembro como você sempre gostava de acreditar no que mais lhe convinha — mesmo sabendo que não era nada do que imaginava.

Quase todo mundo que sofre por amor deseja — ainda que inconscientemente — arrependimento por parte da pessoa que foi embora. E eu desejei isso; eu sabia que você ia cair em si — sabia. Pena que demorou tanto. Pena que tanto faz, tanto fez. Você já não cabe mais em mim.

Garota olhando a lua e o céu estrelhado.

Tem gente que esquece que pessoas mudam. E eu mudei. Lástima que você insiste em dizer que sou a mesma: eu não sou mais aquela que desejou você pra sempre. E veja bem, não leve a mal: desejo o seu melhor, desejo que seja feliz (de verdade, mesmo), desejo que se encontre cada vez mais.

Mas, por favor, pare de me tratar como se ainda tivesse espaço aqui e de alguma forma tivesse direitos sobre mim. Para de reclamar quando eu não retorno os seus elogios. Percebe que não dá pra acreditar neles? Você espera sempre uma resposta equivalente: não é de coração, não é legítimo. É sempre esperando recompensa. É sempre achando que tudo bem bem falar isso e aquilo. É sempre acreditando que você foi a pessoa mais incrível que passou pela minha vida. Mas deixa eu lhe dizer outra coisa: não foi.

É realmente decepcionante gostar de alguém e acreditar que encontrou alguém bacana e depositar várias esperanças na pessoa. É decepcionante, mas é melhor que seja assim. Ninguém pode ser nossa esperança; tem muita (muita não, vai, bem pouca, na verdade) gente bacana solta por aí que vale a pena. Mas nem as pessoas bacanas merecem ser nossa esperança. E nós não merecemos ser a esperança de ninguém. E muito menos o consolo de alguém que sofre e quer dividir suas dores e logo quando ficar tudo bem, some e desaparece e evapora.

Eu te entendo, mesmo. Eu não culpo quem vai embora — eu mesma vou bastante. Mas quem vai e acha que sempre pode voltar me irrita, confesso. E sei lá o motivo que te leva a crer que eu ainda tô aqui pra você. Eu queria estar, sabe? Queria mesmo conseguir acreditar e conseguir sentir. Mas o sentimento não cabe mais em mim, você não cabe mais em mim. E tudo bem. Para de reclamar, para de me chamar de insensível e de vingativa. Não é vingança, nunca foi: é sinceridade e lealdade para comigo mesmo.

Mas eu paro e penso e me pergunto: suas mãos estão cheias de quê, na verdade? Me parece que o que você anda carregando alimenta mais seu ego e sua preocupação em cuidar da casca que fica exposta ao mundo do que cuidar do tem dentro e do que exige cuidado e tempo e energia.

Outra coisa: eu também tô de mãos cheias. Eu tô toda cheia, na verdade. Às vezes derramo um pouco, confesso. Mas não tá faltando nada aqui, não. E embora as suas estejam cheias de algo, não parece que nada do que carrega veio de você: parece que você pegou do chão e ficou segurando só pra acharem que é seu. Mas, meu bem, não dá pra enganar quem não engana a si mesmo. E obrigada, muito do que aprendi veio de você. Valeu. Mesmo.

 

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Acho que estamos todos míopes.

Eu experimentei algo novo dia desses. Senti uma alegria que há tempos me faltava. As coisas andam bagunçadas, confesso. Bagunçadas e indefinidas. Bagunçadas e indefinidas e descontroladas. E embora nada disso tenha mudado, eu mudei. A visão míope, meio embaçada às vezes, tá sendo corrigida.

Garota com olhos nos braços.

Por muito tempo dei valor demais pra besteiras — e ainda dou, mas tá diferente. Acho que finalmente consegui entender que talvez nada disso seja grande coisa. E realmente acho que nada é grande coisa.

Não, não estou acomodada e conformada. Estou leve, apenas. Dane-se, sabe? Tipo isso. Quer gostar, goste. Não tá afim, beleza. Quer se importar com isso, vá em frente. Discorda de mim? Legal. Acho que perdi um pouco do medo da rejeição.

O não tende a ser doloroso, bem sei. Mas é muito insuportável ficar se importando com tudo que falam. As pessoas sempre vão falar, e eu aceitei isso — aceitei que não preciso agradar ninguém e não preciso provar nada aos outros.

Libertador. Todos deveriam experimentar. Quando entendemos que não precisamos nos justificar e nem nos explicar para os outros, vemos que os outros também não estão aqui para nos servir. Deixe os outros em paz, deixe-se em paz.

Mania chata a nossa de achar que todos precisam nos agradar, né? Mania mais chata ainda ficar apontando o dedo pro outro como se fôssemos soberanos e importantes e dignos de toda glória. Não somos. Ninguém é. Cada um faz o que quer (claro que sem interferir na vida do outro).

Eu finalmente entendi que o mundo não gira em torno de mim e que minha vida não é mais valiosa que a vida de ninguém. Eu não preciso sair sempre por cima; eu não preciso ganhar sempre; eu não preciso competir com ninguém; e eu não preciso me sentir especial e diferentona pra estar em paz.

Sabe o que sempre me incomodou? Pessoas que dizem “isso nunca vai acontecer comigo” ou “nossa, eu fui livrada disso e daquilo”. A vida não é uma loteria, caramba. Você realmente acha que tem mais sorte/valor/importância que alguém? Não tem como — precisamos urgentemente corrigir nossa visão.

Não somos mais ou menos sortudos que alguém simplesmente porque algo nos aconteceu ou não nos aconteceu. Pode não ter acontecido com você, mas aconteceu com outra pessoa. Você se considera sortuda por ter se livrado de um acidente, mas e quem passou por isso? Tem menos sorte? Tem menos deus ou sei lá o quê?

Não! A vida não é uma loteria. Coisas vão acontecer independentemente de você ser bom ou ruim. Aceite. A vida não nos deve nada — nós devemos à vida.

E eu entendi isso. E faço uma força imensa pra não me esquecer jamais. Toda vida deve ser celebrada, e a minha não é mais importante que a sua. E a de fulano não é mais importante que a minha. Nós precisamos uns dos outros, essa é a grande sacada. Ninguém vai longe sozinho (e sozinho não é sinônimo de solteiro, tá?).

E tá tudo dentro da gente, sim. É um puta clichê, mas quando mudamos, o mundo muda junto com a gente. Funciona como um filtro: você aprende a selecionar seus problemas, priorizar o que realmente merece ficar no topo das suas preocupações e o que pode ficar pra lá.

Garota usando óculos com coque na cabeça.

E de verdade, tenta trazer mais alegria pra tua vida. É louco, eu sei. O mundo anda bastante perturbado. Pessoas vazias, frias, adormecidas. E nós também nos incluímos nessa, meu bem. Mas precisamos começar a nos esquentar pra ver se a coisa flui. Tenta, ainda que aos poucos, ver que nada disso é grande coisa e que as grandes coisas moram nas pequeninices da vida.

Experimente mudar as coisas de lugar. Experimente deixar pra lá o que te prende ao ego. O mundo tá de ponta-cabeça, sim. As pessoas estão perdidas. Tente se achar. É incrível perceber que as coisas tão valorizadas lá fora são, na verdade, coisas medíocres.

E eu me pego pensando que essa inversão toda é causada porque estamos míopes. Nós nos esquecemos muito facilmente que nada do que nos importa, de fato, importa. Dá pra entender?

Nós muitas vezes zombamos as pessoas que renunciam suas vidas para um propósito maior — como elas conseguem viver sem esses prazeres? Mas a gente esquece quem está realmente míope — que é aquele que faz de tudo pra ter prazeres e mais prazeres e mais prazeres; e mesmo assim, nunca está saciado.

Até quando vai ser mais importante ter do que ser? Até quando precisamos provar nossa importância? Ah, se soubéssemos o peso desnecessário que vivemos carregando.

E eu acordei mais leve. Mudei os óculos e a visão melhorou.

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Autodesenvolvimento Crônicas do Cotidiano

Cuide bem do seu jardim.

Há dias em que respirar é difícil. Dias em que nos arrastamos e não conseguimos levantar e sustentar o próprio corpo. Viver parece um fardo, desistir é a opção mais válida. Mas não abra mão de você. Não importa o tamanho da sua dor, você vai conseguir.

Você é um jardim.

 

Você é um jardim.

E esse jardim precisa de cuidados. Existem pragas, existem dias secos e dias úmidos demais. Você precisa podar as ervas daninhas que querem sugar sua energia. Você precisa se dedicar, regar quando falta água, deixar o sol esquentar suas folhas e suas flores. Você não floresce se não cuidar bem da sua raiz. Seu colorido só irá iluminar o mundo quando você perceber que a cautela vem de dentro da terra. O que tá pra fora só reflete a atenção que você dedicou à parte de dentro.
Ame-se. Ame-se. Ame-se. Ame-se. Ame-se.
Mesmo que tudo desabe – cuida de você, por favor.

Vá com calma. Tudo tem seu tempo.

Eu sei que parece que a tempestade não vai passar e que seu jardim já está completamente perdido e inundado. Mas fica tranquila. Normal se alagar vez ou outra. Ninguém nasceu sabendo e, mesmo crescendo, nos confundiremos: um dia água demais, outro água de menos. Demoramos pra encontrar o equilíbrio. Mas calma – você tem muito a aprender ainda.

Você é um jardim.

Tudo bem murchar.

As flores murcham. As folhas caem. A cor perde o brilho.
Fases. Elas podem até afetar o colorido do seu jardim, mas não vão arrancar suas raízes. Toda estação traz consigo um novo aprendizado; em toda fase, um novo ensinamento. Não se desespere quando se sentir murcha, sem vida. Continue regando seu jardim, continue cuidando dele.

O mundo é nosso maior jardim.

Assim como todos nós, o mundo também é um jardim que precisa de dedicação. Mas nós só saberemos cuidar dessa terra se cuidarmos quando aprendermos a cuidar da nossa. Nosso jardim é um espelho: o que você faz pra você, você é capaz de fazer ao outro; o jeito como você se cuida ensina a todos como deve ser feito. Você é inspiração: tente não perder a cor, ainda que os dias estejam cinzentos.

Devemos encontrar nosso sol. Cultivar nossas flores. O universo nos presenteou com toda a luz e as sementes. Talvez às vezes a gente não ouça mas aqui sempre tem música. Só precisa aumentar o volume ao máximo. Enquanto houver ar em nossos pulmões – precisamos continuar dançando.

– Rupi Kaur