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Autodesenvolvimento

Como habito o mundo?

Ocupar. Habitar. De que modo vivo? Como cuido do agora? Como habito o meu agora? São contemplações que enchem minha cabeça de perguntas e de certezas ao mesmo tempo. Depois de muito sentir, percebo que eu habito o fora do mesmo modo como habito o dentro. A mesma atenção que eu lanço pra fora de mim, eu também lanço pra dentro — o modo como eu faço uma coisa é o modo como faço todas as coisas.

Para habitar eu preciso de confiança. E essa confiança só pode nascer dentro de mim. Eu só consigo lidar com o “lá fora” se eu cultivar, dentro de mim, minha morada. Em tudo há que se encontrar equilíbrio, e isso inclui a forma como habitamos o mundo lá fora e o nosso mundo aqui dentro.

Isso é cuidar. Isso tudo é cuidado. É amor. É envolvimento. Cuidar demanda energia. Demanda inteireza, entrega. O cuidado não é produtivo — pelo menos não pra uma sociedade que valoriza tanto o produto material. Muito pelo contrário: ele pode ser desgastante. E por isso é tão fugidio, por isso nos escapa tanto. De tanto olhar pra fora, de tanto anseio por produzir, acabamos deixando pra lá o cuidado com nossa confiança que vem de dentro e que nos sustenta na vida lá fora — afinal, pra que usar meu precioso tempo olhando pra dentro se eu posso estar fazendo algo que me traga retorno financeiro ou que, ao menos, sirva para a alimentar a exibição desse espetáculo da vida compartilhada que criamos (se o outro não vê o que estou fazendo, não tá valendo). Toda força vem de dentro. Nós só vamos conseguir encarar o mundo se alimentarmos e nutrirmos nosso interior. A volta pra dentro de si mesma dá novo ânimo, novo fôlego, nova coragem.

A volta periódica ao estado selvagem é o que reabastece suas reservas psíquicas para seus projetos, sua família, seus relacionamentos e sua vida criativa no mundo objetivo. Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando.

— Clarissa Pinkola Estés

“Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando”. Uma vida voltada só pra fora cansa — assim como uma vida voltada só pra dentro também cansa. Viver é essa fluidez entre o fora e o dentro. É uma fluidez constante, que nunca cessa. Fluir é um gesto de cuidado e, portanto, improdutivo — e por isso mesmo ele vai exigir de você. Vai exigir desapego e inteireza. O cuidar é uma construção ativa que perpassa o cotidiano. Tudo, o tempo todo, precisa de cuidado. TUDO O TEMPO TODO precisa de cuidados.

Uma relação viva com o mundo faz com que nós formemos uma composição única com o todo. Não somos subordinados e nem violentos perante o mundo de fora; nós simplesmente somos junto com o lá fora. Expandidos, confiantes, seguros. E isso só acontece se tivermos uma casa pra voltar, um lugar que nos acolha, nos dê confiança e espaço pra construir rituais de cuidado: um lugar quentinho, silencioso, onde podemos habitar, ser, crescer, florescer.

Nós temos o direito de habitar uma vida feita à mão, por nós mesmas. É assim que habitamos — assim habitamos. As experiências mais significativas de nossas vidas são compostas dos momentos realmente habitados por nós: momentos de entrega, de construição, de cuidado, de decisão. O prazer de fazer com as próprias mãos, de escolher, de renunciar, de se posionar. Uma vida feita à mão é uma vida habitada no interior; é fluida, constante, silenciosa, cuidadosa. Sua casa apoia e facilita sua passagem no mundo lá fora —e você é sua casa.

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