Dá-me a morte que preciso. Quão difícil pode ser deixar morrer o que precisa morrer? Quão difícil viver sendo o que se é e não mais o que se foi? A morte nos ensina e traz vida. Não há vida sem morte, não há morte sem vida. Eis o ciclo da transformação; o ciclo da vida. Viver, morrer, viver. Viver, morrer, viver.

Viver tem sido líquido. Nada foi feito para durar: desde bens materiais até relacionamentos, as mortes têm sido evitadas, tamanha voracidade temos em pular de galho em galho, sempre sedentos e insatisfeitos — nós fugimos assim que as coisas ficam ruins ou estranhas ou desagradáveis, sem mais nem menos, num piscar de olhos vamos embora. Por que? Porque nós não sabemos lidar com o que morre, com o que se transforma. Nós começamos uma relação achando que todos aqueles sentimentos serão sempre os mesmos, mas jamais o serão. A morte vem para eles e os transforma — e nós nem sempre sabemos lidar com essa transmutação. A gente se apega ao que espera, e isso nos deixa tão frustrados que fugimos. Não ficamos, fugimos. Não arrumamos, trocamos.

Quando algo nasce, algo morre. Inevitavelmente. Quando algo morre, algo nasce. Mas como traremos nova vida e novos significados se não deixamos morrer o que já não cabe dentro de nós? Como traremos nova vida se temos tanto medo da morte? Só de vê-la acenando, de longe, já entramos em desespero e logo fechamos nossas portas a ela. Não aceitamos o processo. Não acolhemos a morte como sendo generosa e parte vital do grande ciclo de transformação: coisas precisam morrer e outras coisas precisam entrar. Ciclo de transformação. Metamorfoses. A fuga? A fuga só nos acovarda. Seria ingenuidade? Pressa?

O desejo de forçar o amor a prosseguir somente no seu aspecto mais positivo é o que faz com que o amor acabe morrendo, e para sempre. (…) Amar significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção. Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir.”

Por sermos duais, é extremamente sábio de nossa parte compreender exatamente o que precisa morrer. E é aqui que entra o autoconhecimento, também. Conhecer para saber o que vai e o que fica. O que me veste e o que não entra mais em mim? O que me dói e o que me faz bem? O que eu realmente quero? Pra onde preciso ir? Quem vai comigo? Que parte de mim preciso enterrar? É por isso que fazemos tudo o que fazemos. É por isso também que ficar na zona de conforto é tão gostoso: não precisamos matar nada — mas depois não adianta reclamar que as coisas estão empacadas. Se nada morrer, nada novo vai entrar. É por isso que fazemos tudo o que fazemos. 

Paradoxalmente, à medida que sua vida antiga está morrendo e até mesmo os melhores remédios não conseguem esconder este fato, ela (a mulher, no caso) está alerta para sua perda de sangue e, portanto, apenas começando a viver.

É preciso aceitar o fim. Deixar morrer o que precisa morrer. Dadme la muerte que me falta. Que tenhamos forças pra irmos de encontro ao que tem que morrer. Que saibamos acolher a vida que nasce em seguida com esperança e brilho nos olhos. Vida, morte, vida. Vai ser sempre assim. Tudo passa por esse ciclo, absolutamente tudo. Coisas, pessoas, animais, sentimentos. Tudo. E sim, vai ser difícil, mas também vai ser delicioso.

O texto foi feito com base na reflexão do livro de Clarissa Pinkola Estés, em “Mulheres que correm com os lobos”, e todos os trechos destacados foram retirados do mesmo (by the way, leiam esse livro — l-e-i-a-m esse livro, pelo amor de tudo que é mais sagrado).

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