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Crônicas do Cotidiano

Afinal, pra quê nos relacionamos?

Você pode ler esse texto ao som de “Jack Johnson – Good People”.

A liquidez e a superficialidade são adjetivos que fazem parte dos nossos relacionamentos atuais. O homem esqueceu-se de ser humano e tornou-se um animal selvagem que anseia pelo topo a qualquer custo. A perfeição é o desejo de muitos, ainda que inconscientemente. Lutam por ter mais; e nessa disputa esquecem-se de ser. Ser humano. Humanidade. Unidade. Disputamos o tempo todo, competimos a todo instante e não sabemos cessar fogo. Não tomamos fôlego, não mudamos de perspectiva. O que importa mesmo é parecer. A era das aparências.

No meio de tanta mentira, de tanta traição e de tanto vazio, acabamos aceitando qualquer coisa que nos preencha. Nossa fome é tão grande que qualquer inutilidade acaba nos saciando. Enchemos nossa mente com baboseiras e acreditamos que são reais; enchemos nossos corações com hipocrisias e cremos que estamos plenos. Achamos que quantidade substitui qualidade, mas na hora de encarar a verdade, nos deparamos com nosso maior medo: estamos sós. Não sabemos mais construir relações sadias e duradouras; nada é feito para durar. Competir e comparar. Competir e comparar. O topo é a ambição maior. Temos que ser melhores em tudo que fazemos: melhores resultados, melhores lugares. A era das aparências.

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O ser humano, que de humano não tem nada, aprendeu com excelência a fingir. Fingir que ama, fingir que se importa, fingir que é livre, fingir que sabe, fingir que é inatingível, fingir que é feliz. Quanto menos você sente, melhor você é. A insensibilidade tornou-se troféu – um belo troféu para exibição. A era das aparências.

Acredito que fugimos tanto de relações sólidas porque, no fundo, temos medo de encarar o que mais vêm à tona num relacionamento: nós mesmos. Quando compartilhamos a vida com alguém nos expomos tanto que temos medo de perder essa imagem sagrada que pensamos haver criado. Vemos que não somos perfeitos e que somos mortais e que não fazemos tanta diferença assim. O mundo continua quer estejamos nele ou não. E isso dói. Dói porque acreditamos que somos seres de excelência quando na verdade todos os são; achamos que somos tão especiais quando todos têm algo de especial. Somos inteiros, mas somos também fragmentos. E ser um fragmento não é assim tão ruim, pois todos, mesmo que fragmentados, são inteiros. E de fragmento em fragmento podemos construir algo tão grandioso, tão bonito, tão humano.

A era das aparências. Somos bombardeados; estamos o tempo todo atolados de coisas que não servem pra nada. Esquecemo-nos do que é simples e singelo e significativo. Esquecemo-nos da arte da contemplação. Estamos tão voltados para nós mesmos que nos tornamos putos egocêntricos. Eu, eu, eu, eu. Meu, meu, meu, meu. Possessivos, ansiosos, gananciosos e capazes de atrocidades para ganhar. Mas ganhar o quê, céus? Alguém me diz: ganhar o quê?

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Crônicas do Cotidiano

Tá tudo bem.

Você pode ouvir esse texto ao som de “No Doubt – Settle Down”.

Mas veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso me alegra, montão.

– Guimarães Rosa

As coisas não vão sair sempre do jeito que queremos. As pessoas vão nos decepcionar. As coisas podem ficar complicadas de uma hora pra outra. Talvez os motivos que nos levam a algo sejam perdidos. A gente vai ficar encurralado. Vamos esperar de alguém algo que não convém. Vamos falar coisas erradas; vamos desapontar pessoas que amamos e vamos gastar energia com pensamentos que não edificam. A gente vai falar muita bosta. E fazer também. E receber. A gente vai ter que tomar decisões que queríamos que já estivessem sido tomadas – ou que alguém tomasse no nosso lugar. A gente vai. Vai mesmo.

E tá tudo bem. Basta entender que nosso contexto todinho serve pra levar a gente pra outro lugar. Nova consciência, nova perspectiva. Se passássemos sempre por coisas boas, será que nossa evolução seria a mesma? A questão não é apenas sobreviver a essas situações. A questão é enfrentar e se apropriar delas. Tentar entender, sabe? Tirar proveito, talvez. Fato inegável é passar por baixos nessa vida. Rejeições, decepções, incompreensões. E tá tudo bem, mesmo. Sua vida precisa continuar do mesmo jeito, mas com novas visões. Ao invés de passar uma vida tentando evitar problemas e morrendo por dentro cada vez que você se anula pra deixar algo enterrado, entenda que é inevitável – por mais que você camufle e finja que nada está acontecendo, as coisas estão acontecendo o tempo todo, coisas boas e coisas ruins.

O que é bom passa. O que não é tão bom assim também. E tá tudo bem. A vida é assim mesmo. Ninguém está aqui pra suprir nossas necessidades e nós tampouco estamos aqui pra viver uma vida que não é nossa. A vida é assim mesmo: ora quente, ora fria; ora cheia, ora vazia. Mas nunca – nunca – insignificante.

Ah, e tudo bem também em sentir coisas ruins. A gente cresce ouvindo que é feio sentir raiva, que é fraqueza sentir insegurança e blá-blá-blá. Feio é sentir e não fazer nada a respeito. Você vai sentir raiva, medo, inveja, ciúme, insegurança, ou seja lá o que for. Não se culpe por isso. Sentimento também passa. E tá tudo bem. Mesmo.

E tudo bem não estar bem, também.

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Entretenimento Para ler

Livros para desfuder seu emocional (ou, pelo menos, ajudar).

Eu sou LOUCA por livros. Leio vários ao mesmo tempo e tenho uma grande queda por aqueles que me ajudam a evoluir espiritualmente e pessoalmente. Hoje trouxe quatro livros que me ajudam muito no processo de autoconhecimento e no trato com as situações e comigo mesma.

Obviamente não adianta apenas ler. Precisamos refletir em cima de alguns pontos e tentar mudar alguns hábitos (êta coisa difícil), mas essas leituras nos estimulam e nos alimentam e são um GRANDE passo para melhorar, nem que seja só um pouco.

  • “A sutil arte de ligar o foda-se”, de Mark Manson. Clique aqui para adquirir o seu.

Esse livro é muito simples. Ele dá uns tapas na cara e nos mostra como a gente se importa com coisas minúsculas. Não somos tão especiais assim, vamos morrer um dia e somos responsáveis pelas nossas ações são alguns temas que nos ajudam a colocar o pé no chão e viver com mais sensatez.

  • “A arte francesa de mandar tudo à merda – chega de bobagens e viva a sua vida”, de Fabrice Midal. Clique aqui para adquirir o seu.

Ai, como é bom mandar tudo à merda – pena que nem sempre é possível. Mas é SEMPRE possível fazer escolhas. Este livro nos mostra que perdemos tempo d-e-m-a-i-s tentando cumprir tarefas e sempre ficamos com aquela sensação de que ainda estamos devendo alguma coisa (o quê? pra quem? pra quê?). A utopia da perfeição nos abraça de modo grotesco atualmente e não é fácil escapar da culpa, mas com algumas mudanças de pensamento e atitude, a vida pode ser mais leve. E vida a paz de espírito! (não se desespere, a gente chega lá).

  • “Zen para distraídos”, de Monja Coen e Nilo Cruz. Clique aqui para adquirir o seu.

Esse mundo é uma loucura. Temos tantas informações e mesmo assim somos mega perdidos (nem todos, vai). A Monja Coen (uma fofa) e seu genro, Nilo, nos presentearam com um livro muito pertinente. Questões do cotidiano moderno estão em pauta aqui, com princípios budistas que podem iluminar nossa inteligência e nossas ações. Se joga. Vale a pena.

  • “O poder do agora”, de Eckhart Tolle. Clique aqui para adquirir o seu.

Que livro, meus amigos, que livro. Os ansiosos precisam pôr em prática as lições que esse tio nos passa. Quanto mais a gente se espiritualiza, mais percebe a importância que a consciência tem na nossa vida, e esse livro aborda justamente isso: ser consciente é viver no agora – fora dele não há felicidade (e a gente vai percebendo que é bem isso mesmo, viu). Repito: se joga.

E aí, deu pra desfuder um pouco? Espero que sim. A vida é assim mesmo povo, uma montanha russa; mas quando a gente busca por autoconhecimento, as coisas vão se iluminando à nossa frente (nem sempre, mas as vezes dá certo). Porém, só sabemos que nada sabemos e morreremos sem saber nem metade do que nós achamos que sabemos. Cruel, mas verdadeiro. Me conta aí embaixo suas impressões.

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Crônicas do Cotidiano

Talvez nada disso seja grande coisa

Você pode ler esse texto ao som de “Florence – The dog days are over”.

Não se preocupe com o futuro. Ou então preocupe-se, se quiser, mas saiba que pré-ocupação é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar resolver uma equação de álgebra.

Eles dizem o tempo todo que tudo passa, não é mesmo? Eles também dizem que a vida é muito curta para preocupações profusas e sentimentos sorumbáticos. A vida é curta demais para deixar com que as coisas lindas tornem-se arrefecidas, adormecidas. E é ainda mais curta para bater em uma tecla que não funciona mais. Mas, céus, como é difícil abandonar velhos hábitos!

De fato, o ar fétido que respiramos não está assim tão agradável; manter relações nem sempre é uma atitude magnânima – sejam amorosas, familiares ou amistosas; e acreditar no divino tornou-se algo distante. É drama demais, é preocupação demais, é lorota demais. Quase morremos com a perda de um grande amor, quase nos afogamos em lágrimas quando alguém nos trai. De duas, uma: ou estamos cada vez mais ingênuos ou estamos completamente desesperados. Eu, particularmente, acho que me enquadro na segunda opção. A pressão que nos bombardeiam cotidianamente nos cerca de todos os lados – “seja alguém na vida, ganhe muito dinheiro, case, tenha uma família, uma boa casa, um bom carro, viaje muito, tenha lindos cachorros” – CÉUS! Onde está o botão que para tudo isso? Onde eu preciso apertar para ter um pouco de pachorra e viver com mais serenidade?

Quando algo se mostra muito errado ou quando as coisas tomam um rumo totalmente oposto ao que estava planejado, penso que talvez nada disso seja realmente grande coisa, talvez a graça da vida esteja em saber descomplicar os nós que a vida costura. Um dia morreremos, um dia voltaremos ao pó, então por que diabos me descabelo por tonterias de modo como se essas fossem durar eternamente? Lá fora o dia está tão lindo e eu estou aqui preocupada por fulana não gostar de mim. Poderia estar me divertindo mas prefiro ficar aqui, estagnada, por causa do emprego que perdi. Nos penalizamos tanto e aumentamos tanto as negatividades da vida que por um momento nos cegamos diante das simplicidades que tornam tudo mais leve. A desgraça existe? Sem dúvida. Rir de tudo é desespero? SEM DÚVIDA. Ninguém esta dizendo que a vida é uma comédia, mas o que precisa ser compreendido é que nem tudo são tragédias. A ligação que você não recebeu, o fora que você tomou, a crítica mal dada: talvez nada disso seja grande coisa. Uma reprovação, uma perda, uma discórdia: as coisas têm seu peso, mas até que ponto estamos sobrecarregando nossas dores? Saber sofrer é preciso, a vida vai te bater e chutar e esmagar e sangrar – mas quiçá estejamos atribuindo valor demasiado ao que não tem cifra.

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Sim, caros, todos temos dores. Mas a vida é tão imensamente preciosa que seria uma verdadeira bobagem perder tempo com dramas excessivos. É hora de soltar o peso das bagagens que te prendem ao que te destrói – ainda que custe muito a desprender-se de velhos costumes, pois, pasmem, nos acostumamos com a dor. Mas hei, nada disso é grande coisa. Tem um mundo girando lá fora, tem um universo prontinho pra te ajudar a encerrar ciclos e recomeçar novos, tem uma natureza branda te gritando que, só talvez, nada disso seja grande coisa, e que – novamente talvez – você esteja se agarrando demais ao que já esfriou, ao que já não é mais tão penetrante. Liberte-se, seja você uma grande coisa e deixe que as moléstias sejam obsoletas.

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Crônicas do Cotidiano

Se não puder melhorar o silêncio, cale-se.

Você pode ler esse texto ao som de “Reggii – Silence”.

Se você não é capaz de melhorar o silêncio, cale-se.

Uma vez me disseram essa frase e ela caiu feito chuva em dia de seca aos meus ouvidos. Eu estava ocupando-me demais com barulhos desnecessários em uma tentativa inútil de preencher meus silêncios sufocantes. Mas desde quando ruídos externos serviram para pacificar alguma alma perturbada? Que eu saiba, nunca. Pelo contrário: esses pandemônios que criamos só fazem com que nos afastemos de nós mesmos, e todos sabemos o que se passa quando isso ocorre: a algazarra torna-se tão, mas tão grande, que somos vomitados do nosso próprio ser e nos sentimos vazios, sem graças, sem ânimo. Interpreto essa frase não apenas no sentido de calar-nos a boca quando não podemos acrescentar algo útil a uma conversação, mas vejo sua grande significação no sentido abstrato: não joguemos tumultos no nosso silêncio. Sei muito bem que o silêncio é assustador tão bem quanto sei que é pacificador. Pra que jogar entulhos no que está perfeitamente arrumado? E também o contrário: se nossa alma está assim tão tumultuada, qual a razão para não evocar o silêncio e assistir sua limpeza?

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Temo que nossa sociedade cada vez mais fuja da calmaria. Vivemos em uma era em que quanto maior o agito, melhor, pois assim temos a desculpa da falta de tempo para resolver o que precisamos e correr atrás do que nos faz bem. Nosso corpo tem um alarme de fábrica que sempre indica quando estamos no caminho errado, e é quando soa esse alarme que, quase sempre, significa que algo está errado. Porém, ao invés de nos retirarmos um pouco da pulsação insana que é viver, afundamo-nos ainda mais no buraco negro. E como eu sempre digo, suas atitudes possuem relação direta com seu estado interior: se por dentro está uma bagunça, a bagunça será feita no exterior; se está uma confusão, seu entorno estará confuso… E assim por diante. E quem muito fala – sem ter realmente algo útil a expressar – é por que está fugindo de seu silêncio. Dessa maneira, é preferível atuar na sua quietude: ele é um grande palco.

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Crônicas do Cotidiano

Obrigada por partir meu coração.

Você pode ler esse texto ao som de “Lorde – Green light”.

Decepção é algo inevitável na vida. Mas, uma coisa é certa: para quem tem fé, momentos difíceis não passam de oportunidades de crescimento e interiorização. Se uma pessoa quebrou seu coração em lascas, você vai descobrir que o único sujeito que vai costurá-lo é você. Somos seres completos, temos tudo dentro da gente. As quedas servem para sacudir nossa vida e colocar tudo do avesso: é assim que nos conhecemos.

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Certo, digamos que eu permaneci no chão alguns dias; faltou-me um pouco de ar e perdi a ilusão e o sentido da vida. Fiquei um pouco desnorteada, sentindo-me a pior mulher do mundo e a mais indigna: se você, que me conhecia tão bem e que jurou estar do meu lado no melhor e no pior, não aguentou ficar de mãos dadas comigo em um mau momento, quem ficaria? E adivinha só, meu bem, nunca vi tantas mãos disponíveis para me ajudar a levantar; e digo mais: não sabia da força que meus braços tinham até precisar ser meu próprio sustento.

Parece – e talvez seja – piegas agradecer ao outro pela dor provocada, mas é uma máxima da vida: nós crescemos muito quando atravessamos um caminho obscuro, de sombras. É na escuridão que aprendemos a emitir nossa própria luz e paramos de depender de um outro para acender uma lanterna. Eu não conseguia imaginar minha vida sem você do meu lado, tinha calafrios de pensar em como minha vida seria uma imundície sem sua presença para me inspirar. Bobagem, a vida precisava me sacudir, e você foi a ferramenta para isso: em questão de minutos minha vida perdeu o chão, e não tardou muito para perceber que ela estava certa – eu sou mais inteira agora. Eu quis tanto te transbordar que esqueci de me encher primeiro; quis tanto te deixar seguro que acabei colocando-me em alto risco; amei-te muito e esqueci do meu amor próprio. Você, a princípio, fez-me sentir a garota mais sortuda da face da terra: a mais linda, a mais amada, a mais desejada, pra no final me dizer, naturalmente, que eu não serviria, por exemplo, pra ser a capa de uma revista. Veja bem: eu queria ser a capa da SUA revista, queria ser a menina dos seus olhos – e estava pouco de lixando pros outros. Mas quando você me jogou para escanteio, dizendo que eu te dava mal estar e que seu amor não era puro, eu perdi meu ar, meu sustento, meu chão. Erro e erro muito, tenho mil e um defeitos, mas sei que minhas qualidades superam tudo isso – EU SEI. E sei também que se você não é capaz de permanecer a meu lado nos momentos difíceis, você não merece que eu compartilhe com você meus momentos bons: “se não aguenta meu pior, não merece meu melhor”. Isso não significa que eu deseje o pior pra você ou que não te admire. Ao invés disso, sei da pessoa extraordinária que é, e eu me esforcei demais para dar o que você queria. Não é sua culpa, muito menor minha. A vida quis assim, entende? O universo tem um jeito louco de provocar encontros e desencontros. Quando te encontrei acreditei que nenhuma história poderia ser mais bonita (de fato, é bem linda), você me virou do avesso e eu me apaixonei pelo homem que eu jurava ser para mim. Quando nos desencontramos, depois de algumas semanas, eu vejo que não: eu conheci a mulher da minha vida.

Eu tenho uma fé tão grande, mas tão grande na vida, que aceito de cabeça erguida que você queira ir. Eu jamais obrigarei alguém a estar do meu lado, nem insistirei. Não pretendo ser uma gaiola e minha intenção não é pedir para que voem comigo. Quem quer, pode voar. Não estou aqui para alimentar a necessidade de ninguém e nem pra procurar sustento em terceiros. Cada um nessa vida é capaz de produzir suas refeições. Não querer é uma coisa, não poder é outra. E já que nossos voos tomaram rumos distintos, apenas cabe a mim desejar que o faça bem. As vezes machuca mais insistir e esmolar amor do que desapegar.

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Eu só queria te agradecer por me provar, pela primeira vez, que eu não preciso de alguém que me preencha; não preciso aceitar metades vulgares ou migalhas: eu sou a única responsável pela minha integridade. Sou forte e, embora esteja um pouco perdida, meus pés sabem aonde vão. Talvez eu tenha descoberto tudo isso um pouco tarde; talvez tenha deixado por muito tempo que outras pessoas controlassem quem sou; acho que me neguei durante muito tempo – mesmo estando convicta de que não. Você me mostrou que eu sou capaz de me reinventar – mudei planos, mudei o cenário e também o roteiro. A ferida ainda pulsa vez ou outra, mas está se cicatrizando muito rápido, mais do que um dia imaginei. Inverti os papeis da nossa história: eu protagonizo, enquanto você não passa de um figurante que teve sua missão muito bem cumprida. Valeu mesmo, cara.

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Sobre os desamores.

Você pode ler esse texto ao som de “The Smiths – Please, please, please”.

Com o tempo tudo se vai. E não, isso não deve ser um problema.

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Desamar é algo bastante cabeludo. Eu ainda não sei se é possível deixar de amar alguém, assim, de repente. Acredito que o amor seja uma edificação que se constrói diariamente com confiança, respeito, admiração e tantas outras artimanhas. Mas desamor, aqui, leia-se amores que não foram; amores que morreram antes mesmo de iniciar a construção, antes mesmo das bases e dos pilares – ou seja: amores meia boca, parciais (se é que podem ser chamados de amores). Os desamores, meu bem, machucam muito o sentir, maltratam a ilusão e a esperança de que um dia o amor chega. Ele chega mesmo? Será que o amor de nossas vidas está por aí? Amamos apenas uma vez?

É normal que depois de uma grande dor amorosa nos fechemos e afirmemos que é melhor estar só, que você se basta e toda a ladainha que conhecemos. Não, isso não é um problema – cada um é uma catedral, uma ilha – e todos os suplementos estão escondidos dentro de nós mesmos. Eu sempre achei linda a ideia do amor ideal, perfeito – problema de uma infância que prega que o “felizes para sempre” aparece – mas eu não quero esperar isso para escrever meu final feliz, não mais. Um dos problemas da atualidade é a parcialidade: as pessoas são rasas, são superficiais – amam até quinta feira a noite, amam enquanto você satisfaz o ego dela. Vivemos na era da conveniência: o que não me cabe eu simplesmente jogo fora. A linha é muito tênue: o que te faz mal deve ir pro lixo sim, mas o que não é lixo não deve ser tratado como tal, percebe? Usar pessoas, jogar com os sentimentos…

Nós não somos lixo, nossas ideologias não são lixo e o emaranhado que compõe toda nossa personalidade deve ser apreciado, mas como dizem por aí, não adianta: se uma pessoa é incapaz de te enxergar profundamente, se ela não for equivalente e prezar pelas mesmas coisas, ela poderá até te olhar, mas jamais compreenderá o que você guarda por baixo da sua pele. Dói aceitar que alguns amores simplesmente não podem ser, não podem existir; dói perceber que amamos sozinhos e destruímos nossas fibras por uma pessoa que não oferece reciprocidade. Dói e não dói pouco. Mas a dor nos faz enxergar uma outra face de tudo isso: os desencontros sempre nos levam a algum lugar.

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Você percebe que o final feliz não está nas mãos de outras pessoas, que sua história será demarcada por outros e o que você subtrai das suas cicatrizes é o que mais importa. Você aceita que ninguém é obrigado a estar do seu lado, portanto, dane-se que fulano ou ciclana não querem trilhar a mesma estrada que você – é um direito deles; afinal, nós também temos nossa peneira e filtramos quem vai e quem fica. Aceite isso. As pessoas chegam até nossas vidas e podem nos ensinar muito, ainda que não elas não permaneçam ali para sempre. O para sempre não existe, ele acaba, e isso só vai ser um estrondo se você permitir (você sempre irá aprender, constantemente, que os outros só fazem para nós aquilo que permitimos que façam). Se eu permiti uma vez que brincassem com o que sinto, tenha certeza que tirei flores em meio ao concreto: foi a primeira e última vez. Eu escolho não me sujeitar mais a isso. E em meio a tudo isso, estão as pessoas que fogem dos (des)amores.

Ah, se soubessem como é bom amar e ser amado! Não vai ser para sempre, não vai ser perfeito, mas vai fazer um bem danado. Permitir-se é uma atitude de garra. Permitir-se ser feliz em meio ao maremoto que é estar vivo é um ato de amor por si mesmo. O ser humano é um camaleão: temos uma capacidade incrível de adaptação. Podemos até sofrer quando algo supremo é retirado de nossa rotina, mas logo percebemos que, apesar de ninguém ser substituível, amadurecemos e percebemos que não podemos cobrar dos outros o que não podemos oferecer – o amanhã é incerto demais e juras de um amor eterno são tão infundadas quanto as histórias de princesas: lamento a decepção, mas sua abóbora não se transformará em uma carruagem, e um homem não vai sair por aí testando o sapatinho deixado em todos os pés até chegar ao teu – você tampouco faria isso, certo? Com toda a efemeridade que nos preenche, por que tanta insistência em querer que tudo seja sempre igual, sempre o mesmo? Basta olhar para o passado e ver como muito do que passamos não nos caberia mais hoje: aquela amizade, aquele primeiro namorado, aquela preocupação…

As prioridades mudam; você muda. Estamos em constante crescimento, mas esquecemos que os outros também estão. Idealizamos amores e brigamos por eles, ainda que irreais. Qual o fundamento eu não sei. Saber separar um ciclo do outro e superar tranquilamente a máxima de que ‘tudo está e nada é’ é sabedoria. Se aparecer um amor, ótimo – saiba aproveitá-lo sem exigências vulgares e sem depositar sua esperança de uma vida melhor nas mãos do outro (isso cheira à decepção), pode ser que dure, pode ser que não, mas vocês dois terão muito o que aprender juntos, isso eu garanto, seja um mês ou seja cinquenta anos.