Em um mundo de egoístas, corajosos mesmos são aqueles que sabem ceder. Me peguei pensando esses dias em como somos individualistas e compreendemos o mundo de acordo com nossas percepções o tempo todo: nossas dores, nossos medos, nossos anseios, nossas inseguranças. Devemos pensar em nós e respeitar tudo o que carregamos SIM, mas o tempo todo? Isso é saudável? E os outros? Todo mundo quer se proteger, se acolher. Mas se todo mundo fizer tudo apenas pensando em si, onde o mundo irá parar? Até onde pensar no nosso umbigo é proteção individual e até que ponto é egolatria?

Presenciei uma polêmica dia desses e isso me fez ter várias reflexões. A situação era a seguinte: um homem e uma mulher tinham um relacionamento; ela começou a treinar e contratou um personal trainer homem; o marido se sentiu ameaçado; ela estava cogitando conversar com o marido sobre essa irracionalidade para que ela fosse tratata e, no meio tempo, trocar de personal para evitar dores inúteis no companheiro. Caíram em cima dela dizendo que isso era machismo, onde já se viu, ele que se virasse com a dor e insegurança dele e blá-blá-blá. 

Casal autêntico fazendo graça - amar é ceder.

Consigo entender os dois lados. Num primeiro momento, também achei a concessão um absurdo. Mas depois comecei a trazer isso para minha realidade e me dei conta de que, NA MINHA OPINIÃO, isso não era machismo (desde que essa insegurança fosse levada a sério e bem tratata). Por que? Porque o amor cede também (amor, amor, tá? não essas coisas líquidas e banais). Se ceder não for nos prejudicar emocional e fisicamente, o que nos impede de abrir a mão? Orgulho? Pra provar que estamos certos a qualquer custo? Não acho que seja bem assim. E se fosse o contrário? Se alguém não é capaz de renunciar pequenas coisas, como serão as grandes? Não serão, né. 

Nós fomos criadas em uma sociedade altamente machista, fato. Mas os homens também estão nessa. Eles também estão aprendendo. Não adianta endemonizar e tomar toda atitude como sendo machista. Ao invés disso, cada mulher poderia ajudá-los. E mulheres também erram. É normal, somos humanos. Por debaixo de cada atitude nossa existe um ser humano vulnerável e propenso a errar. E nós vamos errar, mesmo cercados de tantas informações assim. E tanta informação também pode ser um problema. A gente fica o tempo todo ouvindo várias pessoas dizendo o que é certo e o que é errado. A gente se confunde. “meu deus, se eu aceitar isso estarei sendo trouxa”; “não posso ceder nisso porque eu ouvi falar que é assim que os relacionamentos abusivos começam”; “eu tenho que me amar em primeiro lugar e não posso fazer nada que eu não queira”. E é assim que se forma uma geração mimada e egoísta e imediatista e medrosa (me incluo e luto contra ela todo dia, tá?).

Acho que o abuso começa no momento em que as exigências aparecem. As imposições, as proibições, as opressões. Isso é motivo de alerta. Mas quando é uma troca genuína de sentimentos, nós temos que ajudar quem escolhemos ter do nosso lado. Estamos falando de quem AMAMOS e queremos bem. Ajudem e procurem ajuda. Conversem muito. Não achem que o companheiro ou companheira de vocês é seu inimigo ou inimiga (e se for, hasta la vista, baby). Abrir o coração e expor inseguranças autênticas é muito difícil — e nessas horas a abordagem conta muito: como você as expõe? Você faz isso de coração aberto ou você chega de peito estufado pra cima? Mostrar vulnerabilidade não é fácil, não.

Se queremos um mundo diferente, estamos no caminho errado. O amor ultrapassa qualquer demanda do ego quando é verdadeiro. Precisamos ceder (aos homens e às mulheres) e o ato de ceder não faz com que você perca seu valor em uma relação saudável (e se não for saudável, siga seu instinto, procure ajuda e vaze assim que conseguir).

Parece fácil, mas não é. É muito complexo. É necessário avaliar a situação toda pra se ter discernimento. Mas nós temos que ajudar quem nós amamos. Isso não significa passar por cima de seus mais profundos valores — não! Isso implica em reconhecer a fraqueza do outro e ajudá-lo e respeitar sua dor, e isso tem que ser recíproco! 

 

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