será que estamos nos percebendo?

O que, de fato, andamos enxergando na gente e nos outros? Será que estamos prestando atenção? Estamos percebendo nossos sentimentos, nossos incômodos, nossa essência? E, ao mesmo tempo, será que estamos enxergando os outros no real sentido da palavra?

Como sempre escrevo por aqui, acredito realmente que as pessoas colocam pra fora somente aquilo que trazem dentro de si mesmas. Tendo isso como garantia, é absurdamente chato conviver com gente que não nos percebe; a impressão que tenho é que elas são, antes de mais nada, incapazes de se autoenxergarem. E isso é triste. Muito triste.

Porém, não é sempre que as pessoas não nos enxergam. Em muitos momentos essa impressão que temos não passa de capricho e carência de feridas que estão abertas dentro de nós. É preciso aguçar a percepção e também a intuição para discernir o que está em jogo: insegurança ou incompatibilidade.

Viver com gente que não te enxerga é um dos piores tipos de relacionamento. Você acaba aceitando migalhas e se vê maluco tentando mostrar pro outro quem é você. Mas a gente tem que se lembrar constanemente que, se precisamos nos provar ou justificar pra que vejam nosso valor, algo anormal está acontecendo e atitudes precisam ser tomadas. Mas antes de sair julgando e se afastando de pessoas é legal lembrar que somos responsáveis pela nossa vida e que vestir a capa de vítima pode ser perigoso e enganador.

Muita gente anda vazia de si mesma e cheia dos outros. Nós, muito comumente, somos cercados por pessoas com as quais somos obrigados a conviver, e isso pode ser altamente venenoso se não nos cuidarmos no meio de todo esse processo. Depender da validação externa sempre será uma jornada fadada ao fracasso — eis mais um belo clichê da vida!

Mulher entre flores tapando um olho.

E no meio de tudo isso, algo que merece destaque: nossos relacionamentos precisam ser escolhidos a dedo, com muito cuidado, mas também com muita humanidade. Saiba quem está ao seu lado. Por certo, nós somos responsáveis pelos nossos sentimentos, mas é torturante ficar ao lado de gente abusiva, e o poder de escolha é todo nosso; se não cuidarmos de nossa saúde mental, ninguém o fará. Dá pra sentir o que sai da pessoa. Dá pra perceber quando elas nos querem bem ou não. É ruim demais ser criticado o tempo todo, ser cobrado, ser julgado por suas escolhas e por suas características.

Mas é preciso ter calma. Acima de tudo estamos lidando com humanos. Nós todos temos ego. Nós vivemos em uma sociedade marcada pela cultura da guerra — a gente fica na defensiva mesmo. Eu erro, tu erras, ele erra… Todos nós estamos sujeitos a isso. Então é preciso ter calma para não se tornar inflexível e desequilibrado e autocentrado demais. Equilíbrio é tudo, né? Pessoas que acham que estão sendo invejadas e perseguidas o tempo todo mostram o outro lado da moeda: muitas vezes somos NÓS que estamos percebendo pouco os outros e exigindo demais.

Desvalidar alguém é um ato insensível, e é fácil e confortável demais alegar que “fulano não presta, você merece mais” sem antes compreender que todo ser humano está sujeito a falhas e vulnerabilidades. Nós nos transformamos constantemente, então, logicamente, todos se transmutam no decorrer da vida. Ora, então os outros também evoluem, assim como eu! 

Há uma enorme diferença (e eu me dei conta disso recentemente) entre juízo de valor e julgamentos moralizadores: o juízo de valor reflete aquilo que julgamos ser o melhor para a vida; já quando fazemos julgamentos moralizadores, condenamos pessoas e comportamentos que estão contra nossos juízos de valor. Complexo, né? Mas faz todo sentido. E a empatia é uma ferramenta poderosa para diferenciarmos um do outro.

As pessoas têm o direito de ser quem elas são. Quem escolhe quem vai e quem fica é você. Vale a pena ficar ao lado de tal pessoa? Eu me sinto bem? Me sinto livre para ser quem sou? Sempre lembrando que, do outro lado da história, alguém também pode estar querendo se afastar de você. E como você se sentiria com isso? Você gostaria de julgamentos doentios ou de compreensão? Eu sei que é fácil falar e que na hora a gente costuma cagar e sentar em cima, mas é uma prática reflexiva aprender a lidar com tudo isso. Do mesmo modo que queremos ser vistos, os outros também querem. 

Não acredito que a responsabilidade seja sempre só de um. Se alguém nos maltrata, de algum modo estamos permitindo isso (interprete esta frase com cuidado). Mas compatibilidade e incompatibilidade existem. Energia também. Tem gente que suga, tem gente que soma. Tem gente que machuca e tem gente que cura. Mas talvez quem te machuque seja a cura de outra pessoa. E aí? A gente nunca vai saber. Somos tão complexos. Não dá pra ser amigo de todo mundo, mas o contrário também é verdadeiro. Nós precisamos uns dos outros e a ajuda é sempre bem-vinda. Mas o olhar benevolente para com o outro está em falta; somos violentos demais nas nossas relações. Com certeza você já ouviu aquela frase maravilhosa que diz que “nós nunca sabemos pelo que o outro está passando; portanto, seja gentil” e ela é genuína. 

Meu termômetro é meu sentimento honesto. Em casos como este, eu procuro meditar e refletir e estudar meu próprio corpo e alma. Se tenho que ir embora, tento ir sem julgar os outros com minha moral. Se eu fico, eu tento entender que a escolha foi minha. Note que eu falei que tento. Nem sempre consigo e muitas vezes falho e imponho regras aos outros. Mas a gente é feito disso, né? Erros e acertos. E meu pensamento final, talvez, seja o de que precisamos ser a cura do mundo o máximo que pudermos: vamos enxergar mais os outros — isso diz com certeza que também estamos atentos a nós mesmos; e percepção de ninguém no mundo se equipara ao olhar que temos para conosco. Não significa colocar os outros acima ou abaixo, significa apenas ser humano e empático.

Banat, banat, ban jai.
(Fazendo, fazendo, um dia feito. Um esforço hoje, outro amanhã, e um dia você atinge a meta divina). <3

Aproveito para deixar aqui a dica de dois livros sen-sa-ci-o-nais:

  • Comunicação não-violenta, de Marshall B. Rosenberg.
  • Autobiografia de um iogue, de Paramahansa Yogananda.

E também pra indicar mais leituras aqui do bróguinho:

  • Somos medrosos e mimados demais, aqui.
  • A tal validação externa, aqui.

 

 

 

 

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