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Autodesenvolvimento

revisitar-se.

Há um momento na vida em que olhamos pra dentro e começamos a mudar tudo de lugar, e isso é, quase que na mesma proporção, gostoso e doloroso. Crescer é isso — crescer direito é isso: voltar pra dentro de si mesmo constantemente e mudar, ainda que com medo, o que precisa ser mudado.

A vida é um eterno ciclo de nascer-morrer-nascer. As coisas precisam morrer. Você precisa morrer muitas vezes na vida para que possa nascer e renascer e florescer. Nunca acaba. E a morte, convenhamos, mexe muito com a maioria de nós. Ela dói, ela provoca, ela mostra coisas que queremos esconder. A decisão, no entanto, é e sempre será nossa: o que vai e o que fica depende somente da gente, de cada um de nós. Nós somos nosso próprio oráculo.

E é difícil revisitar-se. Difícil, chato, assustador. Sabe quando você se acostuma com tudo que te cerca e, automaticamente, o que os outros dizem parece ser sua verdade quase que por osmose? Você não critica nada porque tudo aquilo parece muito certo. Você não pergunta pra você mesma se aquela é realmente sua convicção porque, de fato, parece muito ser a sua convicção. A gente se acostuma com o meio. A gente absorve mais do que imagina. E isso, em algum momento, parece muito natural. Mas só é natural por conveniência. Só é natural até o dia em que você para, reflete, e se dá conta de que tá reproduzindo qualquer coisa que te digam sem nem pensar naquilo. Mas não tem nada de normal nisso, mesmo que pareça.

Revisitar-se implica mudanças. O que você escolhe mudar é problema seu, mas saiba que isso afeta toda a sua vida, por mínima que seja a mudança. Isso não mexe somente com você, mexe com todos que estão ao seu redor. E as pessoas não gostam de mudanças (talvez você não goste de mudanças). Mas há um momento muito crítico na vida em que você precisa escolher quem você quer agradar e isso é um saco porque vai derrubando as suas próprias máscaras (você nem sabia que usava tantas máscaras assim, né?). E você se dá conta do papagaio que mora em você: sim, talvez você só esteja reproduzindo o que todo mundo fala sem questionar. E você pode concordar com o que todo mundo fala desde que você PENSE. Nunca, jamais, por conveniência. E o ser humano é um baita bicho conveniente. A gente ama se sentir seguro.

Todo mundo tem seu tempo. Quando eu descobri (e ainda continuo descobrindo) que é um direito meu questionar o que acontece a minha volta eu fiquei chata. Acho que vamos atingindo extremos até chegarmos, finalmente, no equilíbrio — e não tenha medo de ir pro extremo quando você precisar, talvez esse seja seu caminho de aprendizando que o conduzirá à ponderação. A gente fica meio cricri quando começa a perceber que nada do que falam (e que você reproduzia até agora) faz mais sentido pra você. E há que se tomar cuidado aqui, também: respeitar o outro é tão necessário quando respeitar-se a si mesmo, senão caímos em um discurso de hipocrisia e (de novo) conveniência. O outro que reproduza o que ele quer, afinal, a vida é dele e cada um faz o que bem entender. Mas eu, particularmente, acho uma baita dormência só aceitar o que te falam sem consultar suas próprias fontes. Pergunte pra você, mastigue as coisas antes de digerí-las (ao invés de aceitar o que os outros já te dão mastigado), faça suas pesquisas, estude, vá atrás do que te interessa. E, se for preciso, fique quieto. Talvez ninguém entenda e nem aceite. Mas a vida é sua. Será que temos noção de que realmente só temos a nós mesmos? 

Revisitar-se é seu próprio ato de rebeldia contra seus conceitos. O tempo vai passando e já vamos formando tantas opiniões que, depois de formadas, deixamos ela num canto e não as alimentamos mais. Será que as coisas deveriam funcionar assim? Eu acredito que não. É um constante processo de ida e vinda, assim como quase tudo na vida. Isso inclui também reaprender a ouvir (a si mesmo e aos outros). Ouvir os outros não é um problema, desde que você questione e entenda que o que sai da boca de alguém não é nenhuma lei; antes de tomar como verdade, consulte-se. E tudo isso é aprender a ouvir. Como você escuta os outros?

Viver com os outros e fortalecer relações é importante, mas sua solitude é mais importante ainda. Você só vai se revisitar sozinho, sem dar as mãos pra ninguém. E não há nada errado com isso. É sozinho que você vai descobrir o que precisa morrer e o que precisa renascer. 

Continue a reflexão aqui: <3

Concentre-se no que importa.

O que teu barulho cala?