Talvez viver seja crescer.

A vida vai passando e a gente vai se percebendo cada dia mais. É realmente difícil lidar com tudo que temos aqui dentro. É complicado aceitar seus defeitos e suas limitações em meio a tanta competição e caos e tumulto. É chato pra caramba descobrir que muitos de seus sonhos não lhe vestem mais e que é hora de abrir mão de tantos apegos que colecionamos ao longo da vida. A gente cresce com a plena convicção de que as coisas sempre se resolvem no final e de que todos os finais sempre serão felizes. De fato, as coisas podem sim se resolver, mas o que muita gente esquece é de que as coisas só se resolvem se você se resolver. E, falando muito sério, resolver-se não é nada fácil. Viver em sociedade é apavorante e confuso. As situações e as pessoas podem nos mostrar quantos demônios guardamos escondidos dentro do peito; quantas máscaras vestidas; quantas ilusões; quantas mentiras. É fácil estar em paz quando se está isolado, sozinho — afinal de contas, na solidão não nos vemos refletidos nos outros. O desafio mesmo é lidar com essas guerras que nós mesmos criamos e depois choramos para sair dela. Bizarro, né? O ser humano é realmente bizarro. A gente entra em cada beco, em cada furada. E o mais engraçado é que nós criamos essas situações. Nós criamos a competição, a burocracia, o comportamento adequado. Nós inventamos tudo isso e depois pedirmos pra sair pelo-amor-de-deus. Mas talvez as coisas tenham que ser assim, mesmo. Talvez estejamos exatamente onde temos que estar. Ou será que talvez estejamos todos cegos? Chega um momento em que o medo de deixar a vida pra depois te paralisa e você fica meio cagão. Não serve mais qualquer pessoa. Não pode ser mais qualquer lugar. Ficamos mais cuidadosos com o que vai e o que fica. Mas a sensação de “será que eu preciso dispor tanta energia pra isso mesmo” nos acompanha sempre — e se todo mundo, de repente, parasse? Tipo aquela música do Raul, sabe? Nós inventamos essa confusão toda e não conseguimos sair dela. A gente mente pra todo mundo o tempo todo e mente pra si mesmo mais vezes ainda. É bem caótico. É bem engraçado, lá no fundo (bem no fundo). Nós inventamos e nós mantemos tudo isso. Acho que talvez gostemos disso. Talvez esteja tão impregnado que não existiria outra saída a não ser participar. Sei que isso tudo parece mega pessimista, mas têm dias em que a gente se sente cinza. E acho que tudo bem. Talvez deva ser assim mesmo. Crescer nunca foi nem nunca será fácil. E é meio que algo inevitável, sabe? Tdo mundo passa por crises e momentos difíceis e tanta gente nos dá receitas “prontas” e já sabemos tanto sobre como levar uma vida mais leve e mesmo assim, em vários momentos, as coisas passam a ter um peso quase que insustentável. É tipo aquela frase do Criolo “Deus sabe sempre o que tá fazendo,  e mesmo sabendo disso eu sofro, vai vendo”. Dá pra entender? A gente sabe tanto, mas nunca é fácil. E o mais bonito, talvez, no meio disso tudo, é saber que a gente sempre dá conta. A gente sempre encara — as vezes a gente foge também, isso é certo. Mas a fuga ás vezes é a forma de lidar naquela situação. Sâo tantas as possibilidades que cabem em uma vida… Eu diria que são quase que infinitas, na verdade. Cada segundo pode nos levar a um lugar diferente. Isso é MUITO louco. E pra não enlouquecer, melhor mesmo ter fé que estamos onde devemos estar. E ponto. Não se fala mais nisso.

Natalie Foss menina com quatro olhos.
Ilustração de Natalie Foss.

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