você tem medo de quê?

Desde que iniciei minha jornada de autoconhecimento, nunca consegui olhar para o medo sem pensar na coragem, concomitantemente. Um está de mãos dadas para o outro e sempre caminham juntos. Afinal de contas, corajoso é aquele que faz mesmo com medo. Não há coragem sem medo — é semanticamente impossível.

Menina de mãos dadas com o medo.

Eu fico admirada e ao mesmo tempo mega confusa com a dualidade que existe em nós e como ela se completa por si só, mesmo que as vezes desejemos que ela não exista. É chato pra caramba ficar triste; é um porre sentir vergonha, indiferença, frustração, raiva, ansiedade… Mas esses sentimentos nos constituem como seres humanos e precisamos acolhê-los. Fácil nunca foi, não é e nem nunca será. Mas estamos nessa vida para isso, dentre tantas outras coisas que negligenciamos. Minha percepção de mundo se transformou muito quando aceitei que a dualidade faz parte de todos nós.

A criação é, ao mesmo tempo, luz e sombra. Sempre precisa existir uma alternância na supremacia entre o bem e o mal de maya. Se a alegria fosse ininterrupta aqui neste mundo, viria o homem a desejar um outro? Sem o sofrimento, ele dificilmente trata de recordar que abandonou seu lar eterno. A dor é aguilhoada para despertar a memória. A via de escape é a sabedoria.

— A voz divina para Paramahansa Yogananda, em Autobiografia de um Iogue.

Com o medo não é diferente. Nós precisamos dele para expressarmos coragem. Se você faz mesmo com medo, isso significa que você venceu sua própria sombra e se agarrou à luz. Nem sempre isso fica evidente instantaneamente — muitas vezes a convicção da coragem (e da vitória por meio dela) demora a chegar. E assim precisamos caminhar. Não devemos atacar e reprimir nossos medos; ao invés disso, precisamos aprender a como confrontá-los, a como deixarmos a coragem nos guiar diante disso tudo. Ninguém vem ao mundo sem medo de alguma coisa. 

As emoções que sentimos são compostas de uma infinitude de eventos que nos ocorreram; nem sempre o medo vai ser racional e geralmente ele vem cheio de cargas emocionais. Sem contar que esse sentimento sempre leva em consideração os desejos do ego, e por isso eles precisam ser trabalhados e analisados com cautela. Mas ele não é apenas um vilão: o medo pode nos livrar de grandes problemas, também.

O medo também pode ser ferramenta muito útil para nos autodescobrirmos. O que seu medo pode revelar sobre você? Pra onde ele te leva? Quais são seus medos mais profundos? Pergunte-se. Olhe pra dentro de si mesmo e tente trazer à tona os seus medos. Isso pode ser revelador (e um tanto quanto perturbador, mas é assim mesmo). 

Mas o que transforma tudo é a forma como lidamos com nosso medo. Ele pode ser seu inimigo, mas também pode ser um amigo (um desses nem sempre muito agradáveis, sabe?). Fingir que eles não existem pode revelar um outro medo, e aí é algo que só quem sente pode investigar. O que eu sei que ajuda? A fé que você carrega e preserva; a aceitação e o olhar afetivo para com seus medos; a meditação; a contemplação; o autoconhecimento. O que muda tudo é olhar pra dentro de si próprio (sem se esquecer de olhar pra fora, também, senão é como trocar seis por meia dúzia) e descobrir que nós somos os únicos capazes de fazer algo concreto por nossos medos. A palavra e a decisão final sempre serão nossas. As emoções têm o tamanho que damos a ela. Qual o tamanho dos seus medos? Você tem medo de quê?

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